Pela primeira vez em mais de 60 anos, o Relógio do Fim do Mundo (no
original, “Doomsday Clock”, também chamado de Relógio do Apocalipse), um
relógio imaginário que representa a proximidade da aniquilação da
humanidade através de mecanismos que nós próprios projetamos, chegou o
mais perto da calamidade global.
Na
última quinta-feira, 26 de janeiro, os cientistas o moveram 30 segundos
mais perto do apocalipse, agora a dois minutos e meio da meia-noite.
A nova posição do ponteiro foi determinada pelo Conselho de Ciência e
Segurança do Boletim dos Cientistas Atômicos, em consulta com uma
equipe de especialistas incluindo 15 vencedores do Prêmio Nobel.
A história
O Relógio do Fim do Mundo foi criado em 1947 como uma ilustração de
capa do Boletim dos Cientistas Atômicos, um jornal fundado em 1945 por
pesquisadores que trabalharam no Projeto Manhattan (que desenvolveu a
primeira bomba atômica) e que “não podiam permanecer alheios às
consequências de seu trabalho”.
O relógio, assim, devia servir como um aviso sobre o pouco tempo que
havia para a humanidade lidar com as implicações de ter armas nucleares.
Sua posição foi fixada às 23:53.
Desde
então, o relógio tornou-se um símbolo do perigo em curso representado
não só por armas nucleares, mas por outras ameaças criadas pelo homem.
Os
cientistas se reúnem duas vezes por ano para avaliar o escopo e a
escala dos perigos mortais mundiais. O ponteiro dos minutos já zanzou
para a frente e para trás, mudando de posição 22 vezes nos últimos 70 anos.
O recorde ocorreu em 1953, quando os Estados Unidos e a União
Soviética testaram suas primeiras armas termonucleares com apenas seis
meses de distância. O relógio ficou a apenas dois minutos da meia-noite.
Em 1991, respiramos fundo 17 minutos antes do apocalipse com o fim da
Guerra Fria e a assinatura de um tratado entre as duas potências,
prometendo uma redução significativa de seis arsenais nucleares.
Os perigos de hoje
Os membros do Conselho de Ciência e Segurança consideram uma série de
fatores ao decidir para qual direção o relógio vai andar, por exemplo,
ameaças nucleares – como o número total de ogivas nucleares no mundo e a
segurança de materiais nucleares -, ameaças relacionadas à mudança
climática – como o aumento do nível do mar e quantidades de dióxido de
carbono atmosférico -, e os impactos da biossegurança e outros perigos
emergentes.
Analisando os acontecimentos de 2016, especialistas descobriram que a
expansão do desenvolvimento de armas nucleares e os testes em andamento
na Coréia do Norte, Índia e Paquistão eram causas de grave preocupação.
A relação incerta entre os EUA e a Rússia é também inquietante.
Segundo Thomas Pickering, ex-subsecretário de Estado para Assuntos
Políticos e embaixador dos EUA nas Nações Unidas, Federação Russa,
Índia, Israel, El Salvador, Nigéria e Jordânia, apesar de os dois países
estarem atualmente “em desacordo com poucas perspectivas de
negociação”, o novo presidente americano Donald Trump e o presidente
russo Vladimir Putin podem fazer avanços em pactos.
Por outro lado, a inação do governo Trump em face das mudanças
climáticas é desanimadora. De acordo com David Titley, professor de
Prática em Meteorologia na Universidade Estadual da Pensilvânia, nos
EUA, a nova administração não deveria perder tempo com dúvidas sobre o
fenômeno.
“Não há fatos alternativos que farão com que a mudança climática
magicamente desapareça. O governo Trump apresentou candidatos para
posições em nível de gabinete que prenunciam a possibilidade de que o
novo governo será abertamente hostil até mesmo para os mais modestos
esforços para evitar a catastrófica mudança climática. A mudança
climática não deve ser uma questão partidária. A física bem estabelecida
do ciclo de carbono da Terra não é nem liberal nem conservadora em
caráter”, explicou.
Não para por aí
Cibertecnologia e biotecnologia também foram identificadas como ameaças emergentes em uma escala global.
Lawrence Krauss, diretor do Projeto Origens da Universidade Estadual
do Arizona, nos EUA, disse que a suposta intervenção recente da Rússia
na campanha presidencial dos EUA, relatada por agências de inteligência
americanas, destaca a vulnerabilidade dos sistemas de informação no
ciberespaço e prejudica o funcionamento da democracia.
Em todo o mundo, o aumento da dependência de governos, empresas e
indivíduos da internet levanta preocupações sobre os impactos de hacking
sofisticado em atividades financeiras, redes de energia nuclear, usinas
elétricas e liberdades pessoais.
E, enquanto o desenvolvimento da tecnologia de edição de DNA – como a
poderosa ferramenta CRISPR – oferece boas esperanças para curas de
doenças, também carrega o risco de se tornar perigosa se cair em mãos
maliciosas.
Tique-taque
O fracasso dos líderes mundiais em agir contra esses perigos aumentou a probabilidade de uma catástrofe em escala global.
De acordo com os cientistas, as ações necessárias para reduzir os riscos de desastres devem ser tomadas muito em breve.
Embora o Relógio do Fim do Mundo seja apenas uma metáfora, o atual
risco para a humanidade e para o planeta é muito real. Agora, mais do
que nunca, nosso futuro depende de governos que possam enfrentar a
ameaça dupla da mudança climática e do armamento nuclear.
Fonte: www.hypescience.com

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