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quarta-feira, 27 de julho de 2022
Soberania Nacional - temos o dever de exigir a defesa das nossas riquezas
quarta-feira, 25 de maio de 2022
Você que não acredita em Terra plana, realmente não é um terraplanista? A customização da ciência
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021
Sonda chinesa chega ao planeta vermelho, Brasil assiste do chão.
*Paulo Basso
A China investe e avança na nova corrida espacial, assim como outros países do BRICS. O programa espacial brasileiro, por sua vez, conta com menos recursos a cada ano.

A sonda Tianwen-1 a caminho de Marte, em 16 de dezembro de 2020
Foto: China National Space Adminstration / via AP
Nesta quarta-feira (10), por volta das 10 horas, horário de Brasília, foi confirmada a entrada na órbita de Marte da sonda chinesa Tianwen-1. Esse feito coloca o país socialista no seleto grupo de nações e agências que investem consistentemente em uma nova corrida espacial. Enquanto isso, o programa espacial brasileiro é sistematicamente desmontado, colocando o país em uma, cada vez maior, situação de vulnerabilidade estratégica e de dependência tecnológica.
Ao alcançar com sucesso a órbita marciana, a sonda Tianwen-1 demonstra a robustez do programa espacial chinês. Na terça-feira (9), os Emirados Árabes Unidos, com a sonda Hope, também já haviam chegado ao planeta vermelho. Dessa forma, passam a compor, junto com Rússia, Índia, EUA e União Europeia, o pequeno grupo que logrou êxito em realizar tamanha façanha.
Enquanto a missão árabe, que resultou de um trabalho de seis anos, permanecerá em órbita e se concentrará em estudos atmosféricos, a sonda chinesa irá mais longe. Em maio, o módulo orbital, após estudos prévios, liberará um módulo de pouso carregado com um “rover” exploratório.
A missão dos chineses carrega uma série de instrumentos de pesquisa, dentre eles câmeras de alta resolução, detectores atmosféricos, ionosféricos e de medição de campos magnéticos, radar, sistema de espectroscopia a laser, leitores topográficos, de clima e de imagens multiespectrais – além disso, é a primeira missão equipada com um radar para penetração no solo. Feito impressionante, com grande potencial de aquisição de novas informações marcianas em áreas como geologia, hidrologia, mineralogia e biologia.
E o Brasil?
Chama a atenção o fato de que, entre os países que compõem os BRICS, apenas África do Sul e Brasil não participam dessa estratégica corrida. O programa espacial brasileiro se arrasta, com avanços e retrocessos, durante décadas.
Iniciado nos anos de 1940, por iniciativa militar, buscava a construção de foguetes, num cenário de pós Segunda Guerra Mundial, quando se identificou a necessidade de modernização das Forças Armadas. Em 1949, o Instituto Militar de Engenharia conseguiu decolar seu primeiro foguete com sucesso. Nos anos sessenta, como desdobramento de um decreto presidencial do governo Jânio Quadros, são criados o Grupo Executivo de Trabalho e Estudos de Projetos Espaciais (GETEPE), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) e o Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI), localizada em Natal-RN – primeira base de lançamentos de foguetes da América Latina.
Durante a década de 1970, trabalhava-se com a perspectiva de consolidação de um programa espacial completo, que contemplasse a construção de veículos lançadores, centros de lançamento e produção de satélites. Tendo isso em perspectiva, é no início dos anos oitenta que se faz necessária a ampliação da capacidade de lançamento, o que resultou no estabelecimento da base de lançamentos de Alcântara-MA.
Ao longo dessas décadas foram estabelecidas parcerias com diversos países, como EUA, China, Alemanha e França. Entretanto, durante a década de 1990, é criada a Agência Espacial Brasileira (AEB) e é colocado em órbita o primeiro satélite exclusivamente brasileiro. Além disso, o país passa a integrar o programa da Estação Espacial Internacional. Anos depois, em 2006, em nova parceria, um astronauta brasileiro permaneceria dez dias em órbita, nesta mesma estação.
Retrocessos
Em que pese a lentidão dos avanços alcançados, até aquele momento, o país vinha consolidando uma política permanente de conquista do espaço. Entretanto, em agosto de 2003, ocorre o trágico acidente em Alcântara, por ocasião do lançamento do Veículo Lançador de Satélites (VLS). Com 21 metros de altura, o veículo, que colocaria dois satélites de observação terrestre em órbita, era considerado um passo fundamental para a autonomia do programa espacial brasileiro, reduzindo a necessidade de lançamentos a partir da contratação de veículos e bases de outros países, como acontece até hoje. Além da destruição de todo o equipamento, com a explosão da torre de lançamento, o Brasil perdeu no desastre 21 profissionais civis, altamente qualificados.
Apesar da comissão de investigação ter descartado a possibilidade de sabotagem – suspeita que ainda paira sobre o ocorrido, já que as causas nunca foram plenamente esclarecidas – o que ficou evidente foram falhas nas condições de trabalho e segurança, relacionadas à escassez de pessoal, defasagem salarial e de aportes financeiros. A comoção causada, foi um duro golpe e causou a paralisação do programa espacial brasileiro.
Após a tragédia, várias mudanças e recomendações foram postuladas. Em 2012, a AEB lança a quarta edição do Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE), que teria validade até 2021, propondo novas diretrizes de atuação. Porém, em 2015, o Brasil sofre novo revés em seu programa espacial, quando uma falha no motor do foguete VS-40M V3 causou uma explosão na plataforma de lançamento, na mesma base de Alcântara.
A Agência Espacial Brasileira vem sofrendo recorrentes cortes em seu orçamento. Em 2014, dos R$ 300 milhões previstos, apenas R$ 260 milhões foram disponibilizados, em 2015 o orçamento foi reduzido para R$ 230 milhões. A título de comparação, a Agência Espacial da Índia (ISRO) investiu R$ 3 bilhões em seu programa espacial, no mesmo período.
Por que investir no programa espacial brasileiro?
Sempre que é trazido à tona o assunto, logo se forma uma coro de senso comum clamando “porque investir no espaço, enquanto tem tanta gente passando fome no país?”. Essa mesma ladainha foi repetida quando da realização da Copa do Mundo (2014) e das Olimpíadas do Rio (2016) e reflete uma incapacidade de perceber a realidade de forma sistêmica.
Deixando de lado os eventos esportivos, temos o mesmo discurso em relação às universidades públicas, aos institutos de pesquisa e às áreas de humanas nas escolas. O programa espacial, além de possibilitar o lançamento independente de foguetes e de possibilitar colocar em órbita satélites científicos, de georreferenciamento, meteorológicos, de defesa, de acompanhamento de queimadas possibilita o desenvolvimento de várias cadeias industriais. O avanço na área das várias engenharias, da química, de materiais de alta resistência, de sistemas de navegação e de comunicação, do qual somos dependentes de outros países, são alguns dos exemplos a ser explicitados.
Isso tudo se traduz em fortalecimento da indústria nacional, da produção de ciência e tecnologia, na geração de empregos e na soberania nacional – o que fica evidente no vazamento de documento, pelo Wikileaks, onde se registra uma mensagem do governo estadunidense para a embaixada da Ucrânia, em Brasília, apontando seu descontentamento com o apoio dado ao programa de veículos de lançamento espacial que o Brasil vem desenvolvendo.
Mais do que nunca, ganha relevância estratégica o investimento consistente e sistemático em inovação, ciência e tecnologia. Os cortes no orçamento para pesquisa e desenvolvimento só se aprofundaram, após o golpe de Estado de 2016. Não alcançaremos o bem estar do nosso povo e a soberania da nossa nação, enquanto não formarmos uma maioria política disposta a se comprometer com essas agendas. Enquanto isso, assistimos, do chão, as conquistas espaciais dos outros países.
Publicado originalmente em: Sonda chinesa chega ao planeta vermelho, Brasil assiste do chão - Vermelho
*Professor no Centro para Desenvolvimento do Potencial e Talento – CEDET, Mestrando em Educação Profissional e Tecnológica, IFSULDEMINAS – Campus Poços de Caldas e Presidente do PCdoB Poços de Caldas/MG
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sexta-feira, 29 de janeiro de 2021
É necessário democratizar as conquistas científicas da humanidade.
*Professor Paulo Basso
No capitalismo, o conhecimento técnico-científico, e suas mais variadas aplicações, é usurpado por uma minoria, que o utiliza como forma de controle e manutenção de seus privilégios, instrumento na luta de classes.
Se você pudesse voltar no tempo e fizesse uma parada no início do Pleistoceno Médio (por volta de 300 mil anos atrás) veria que o Homo sapiens, da época, pouco diferia do atual, na aparência física. Se um deles vestisse roupas contemporâneas e recebesse um bom corte de cabelo, transitaria pelas ruas sem chamar a atenção. Entretanto, sua mente não teria muita relação com a dos humanos modernos – e não temos ideia de como, ele, vivenciaria tal experiência. É controversa a possibilidade de que produzisse cultura, no sentido que hoje é atribuído ao termo.
Avançando para meados do Pleistoceno Superior (40 mil anos atrás), além da aparência física, você perceberia que a estrutura da mente, de um humano médio da época, seria muito semelhante com a dos seres humanos do presente. Evidência disso está no fato de que legaram magníficas pinturas e esculturas, conheciam a música, produziam sofisticados instrumentos de caça e de pesca, se valiam dos ciclos da natureza e realizavam complexos rituais. Provavelmente, contavam histórias ao redor de fogueiras, relatando as experiências cotidianas, buscando explicações para os fenômenos circundantes, trocando técnicas de produção de ferramentas e de caça, se protegendo de animais selvagens e contemplando as estrelas.
Se a estrutura física e mental dos humanos permanece basicamente a mesma, há milhares de anos, por que, ao olhar para o passado, tem-se a impressão de que tudo mudou tão radicalmente? Essa constatação tem mais relação com as transformações operadas externamente do que com as eventuais mudanças no âmago da espécie – mudanças evolutivas, geralmente, levam milhares de anos para ocorrer. A capacidade de alterar o ambiente circundante, a partir da percepção das leis e fenômenos da natureza, e da transmissão desses conhecimentos, culturalmente, possibilitou uma mudança extraordinária nas paisagens planetárias e no estilo de vida dominante. Goste-se ou não do resultado, isso é fruto do trabalho e da inventividade humana.
Na maior parte da história, o mundo era muito menor e, paradoxalmente, muito maior. Menor porque, a maioria dos indivíduos passava sua vida atrelados a paisagens e acontecimentos restritos a poucos quilômetros e a poucas pessoas – com a exceção parcial de povos caçadores-coletores migratórios, que percorriam grandes distâncias, e de quem vivia no centro de grandes impérios, onde travava contato com grandes contingentes populacionais. Maior, porque as distâncias não podiam ser vencidas facilmente, a Terra, da qual o grego Erastóstenes de Cirene mediu a circunferência com surpreendente precisão, ainda no século III a.C., parecia não ter fim.
Hoje, essa perspectiva foi invertida. O mundo se tornou pequeno, seja pela possibilidade de vencer as distâncias, fisicamente, através dos mais variados meios de transporte, seja pela presença incorpórea através dos meios eletrônicos de comunicação. Por outro lado, se tornou muito maior! O número de pessoas que perpassam a vida de um indivíduo, através das mais variadas formas de interação, chega à casa dos milhares e os locais onde pode ir, visitar, conhecer, aumentou enormemente, bem como as informações a que pode ter acesso, que lhe permite perscrutar todo o conhecimento humano, acerca do universo, da história e da vida.
Mas não se trata apenas disso. Nossos antepassados, e isso persistiu até o início do século XX, tinham uma expectativa média de vida inferior a trinta anos, não podiam conservar alimentos por longos períodos, pouco sabiam sobre as origens das doenças e muito pouco podiam fazer para combatê-las, não se beneficiavam de vacinas, anestesias, analgésicos, anti-inflamatórios e antibióticos – uma fratura ou uma simples inflamação poderia ser fatal.
Remédios, televisão, telefones celulares, cerveja gelada, água tratada, microprocessadores, aviões, estradas, satélites, microscópios, produtos de limpeza, ressonância magnética, queijo fresco, depiladores elétricos, Netflix, luz elétrica, máquina de lavar, vacinas, transplante de órgãos, impressoras 3-D, motor a combustão, batom, tênis, internet, assim como milhares de outras invenções e descobertas que se tornaram parte do cotidiano, são resultado de um esforço coletivo de toda a humanidade – uma cadeia de descobertas e transmissão de conhecimento que, direta ou indiretamente, envolve todos os humanos que já nasceram no planeta. A partir do conhecimento adquirido e acumulado por gerações, a ciência e a tecnologia fazem avançar as fronteiras das possibilidades humanas, melhorando significativamente a qualidade de vida das pessoas.
Entretanto, ainda persiste grande desconfiança em relação à ciência, inclusive no campo progressista e de esquerda. Critica-se o terraplanismo e os movimentos antivacina, mas defende-se a homeopatia e nega-se o evolucionismo biológico. Desconsidera-se os avanços científicos, propugnando um retorno a um passado idílico, que os sonhos criam mas que a realidade histórica não sustenta. A trajetória humana está eivada por fomes, guerras e epidemias! Ao contrário do que é propagado, começa-se a sair desse lodaçal existencial a partir da utilização sistemática do conhecimento técnico-científico.
No capitalismo, esse conhecimento, e suas mais variadas aplicações, é usurpado por uma minoria, que o utiliza como forma de controle e manutenção de seus privilégios, instrumento na luta de classes. Uma das principais tarefas, daqueles que defendem uma sociedade próspera, igualitária e soberana, é atuar no sentido da democratização e socialização plena das façanhas do empreendimento humano, bem como do instrumental e do método que subjaz a produção desse conhecimento. Neste momento de grave crise, potencializada pelo coronavírus, as contradições inerentes às atuais formas de organização econômica, social e política se desnudam. É uma excelente oportunidade para se discutir e agir para a edificação de um novo tipo de sociedade.
Publicado originalmente em: É necessário democratizar as conquistas científicas da humanidade - Vermelho
*Professor no Centro para Desenvolvimento do Potencial e Talento – CEDET, Mestrando em Educação Profissional e Tecnológica, IFSULDEMINAS – Campus Poços de Caldas e Presidente do PCdoB Poços de Caldas/MG
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sexta-feira, 15 de janeiro de 2021
Extinção do CEITEC é crime de lesa-pátria e traição nacional
*Professor Paulo Basso
Uma brutal política de desmonte do Estado Nacional foi posta em marcha e presenciamos os ataques contra as universidades públicas, os institutos de pesquisa, os institutos federais, as empresas nacionais, públicas ou privadas, e a qualquer instituição ou entidade que guarde qualquer relação com a perspectiva de desenvolvimento nacional soberano.
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| Indústria de semicondutores CEITEC. |
Ciência, inovação, tecnologia, educação, soberania nacional, desenvolvimento econômico e social. Palavras e conceitos que, ao raiar dessa terceira década do século XXI, caminharão cada vez mais próximos. Não é mais possível negar que para alcançar uma posição forte e autônoma no tabuleiro geopolítico internacional, a melhoria das condições de vida e autodeterminação do seu povo e a defesa da sua soberania nacional, um país não pode deixar de avançar suas fronteiras do conhecimento, investindo maciçamente na pesquisa e na produção do conhecimento técnico-científico.
Entretanto, os países ricos e os em ascensão robusta já ocupam muitos dos nichos relacionados à escala de produção de conhecimento e inovações científicas e tecnológicas, dominando o mercado mundial nos setores que realmente induzem ao desenvolvimento de suas nações. Não é tarefa fácil, para um país como o Brasil, conseguir romper essa bolha e adentrar no seleto grupo que domina a ciência, os métodos e a tecnologia que garantem o protagonismo no mercado de ponta mundial.
Construir um parque industrial voltado para o desenvolvimento de pesquisas e produção hightech, não acontece da noite para o dia. Pressupõe um projeto nacional de desenvolvimento, ancorado em uma atuação marcante do Estado enquanto financiador e protetor das pesquisas e indústrias nascentes, ou em desenvolvimento, sejam elas públicas ou privadas. Do contrário, não é possível avançar por todas as etapas do processo, que geralmente demanda pesquisa – por vezes de longo prazo -, incubadoras de desenvolvimento, enfrentamento ao assédio, coerção e boicote perpetrado por multinacionais e governos concorrentes, inserção e conquista de mercados, aquisição de competitividade, consolidação de uma política permanente de inovação, para citar alguns dos desafios. Por vezes, tudo isso pode levar décadas. Portanto, não pode estar condicionado aos interesses imediatistas do mercado, e sim delineado nas estratégias de médio e longo prazo do Estado Nacional.
Infelizmente, o Brasil, que se agarrou à ideia de ser o “país do futuro” e nunca do presente e, atualmente, vem se tornando o país do passado obscurantista, ao longo das últimas décadas enveredou por caminhos que o afastaram, cada vez mais, da possibilidade de se colocar no Olimpo das potências mundiais. Na Nova República, com exceção de um pequeno surto industrializante, em meados da primeira década do século XXI, assistimos a um processo permanente de desindustrialização vinculado à uma total falta de concepção de um projeto de desenvolvimento nacional – uma nau à deriva, sem um itinerário ou um porto de chegada. Situação que se deteriorou, ainda mais, após o fatídico golpe de Estado, perpetrado em 2016.
De lá para cá, a destruição acentuou-se celeremente. Uma brutal política de desmonte do Estado Nacional foi posta em marcha e presenciamos os ataques contra as universidades públicas, os institutos de pesquisa, os institutos federais, as empresas nacionais, públicas ou privadas, e a qualquer instituição ou entidade que guarde qualquer relação com a perspectiva de desenvolvimento nacional soberano.
Após a privatização e desnacionalização da Embraer e o assédio privatista permanente sobre os Correios, a Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil, a Eletrobrás, a Petrobrás, a Telebrás e até mesmo sobre a Casa da Moeda – para citar os em maior evidência – a sanha antinacional entreguista voltou-se para o Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada S.A. (Ceitec). Publicado no dia 15 de dezembro de 2020, o Decreto presidencial Nº10.578 dispõe sobre a dissolução societária do Ceitec, evidente crime de lesa-pátria e traição nacional.
CEITEC
Menos conhecida do grande público e mesmo das redações dos grandes grupos midiáticos, que defendem, diuturnamente, o saque e a destruição do patrimônio nacional, o Ceitec é uma empresa estatal, com sede em Porto Alegre – RS, que tem no seu escopo a produção de semicondutores, microeletrônica e áreas correlatas.
Fruto de um longo processo, que começa a ser delineado ainda no ano 2000, através de um protocolo de intenções firmado entre os três níveis de governo, instituições de ensino superior e empresas privadas, ganha densidade em 2005, nos parques tecnológicos da UFRGS e da PUCRS, tendo sua criação autorizada em julho de 2008, pela Lei nº11.759, e é oficializado em novembro do mesmo ano, através do Decreto 6.638. Sua inauguração, que contou com a presença do então presidente Lula e da futura presidente Dilma Rousseff, ocorreu em 05 de fevereiro de 2010.
A estatal brasileira é, ou era, a única fábrica de chips e alta tecnologia da América Latina. Dimensionar os efeitos deletérios dessa extinção não é tarefa simples.
Em primeiro lugar, reitera-se a total falta de compromisso da elite local e de seus asseclas no Governo Federal, no Judiciário, no Legislativo Federal e nos grandes conglomerados midiáticos, com qualquer tipo de projeto soberano de país. Entregues à orgia financeira, abandonaram qualquer perspectiva nacionalista. Sua atuação, sistemática, é no sentido de transferir nosso patrimônio público, arduamente construído, ao capital privado.
Demagogicamente, o decreto de extinção e as justificativas expostas no site do Ministério da Economia, mostradas a seguir, distorcem e manipulam a realidade, apontando, cinicamente, os motivos do crime:
“– o setor de atuação do Ceitec é caracterizado por intensas mudanças tecnológicas, que demandam elevados e contínuos investimentos em P&D e a rápida adaptação das empresas, o que não é compatível com as limitações do modelo de empresa pública;
– a receita líquida de vendas do Ceitec não acompanha o crescimento das despesas com pessoal e as receitas totais cobrem, historicamente, menos de 10% de suas despesas; e
– mesmo que os cenários projetados pelo Ceitec se concretizem, ainda seriam necessários aportes da União, por alguns exercícios, para a cobertura dos custos da companhia, além de relevantes reestruturações de forma a aumentar sua geração de caixa.”
Ou seja, o governo federal sabe que se trata de um setor estratégico, que demanda investimento, pesquisa e desenvolvimento. Por outro lado, deixa claro sua falta de capacidade gerencial e administrativa, bem como sua ideologia ultraliberal, ao apontar que empresas públicas seriam ineficientes. Aparenta não compreender a necessidade de aporte de mão-de-obra especializada nestas áreas de ponta, além de investimento que proteja e estimule essas indústrias em sua jornada de desenvolvimento. Reconhece que o Ceitec apresentou um cronograma de estruturação e consolidação, descartado por motivos ideológicos e antinacionais, que caracterizam um governo subserviente a interesses externos, notadamente aos interesses imperialistas.
Não é o que está acontecendo. Após o golpe de 2016, nossas melhores mentes estão se retirando do país, nossos engenheiros são “empreendedores” de aplicativos de transporte e assistimos a um desmonte sistemático do nosso Sistema de Educação, Ciência, Tecnologia e Inovação. Cortes de verbas atingem e paralisam outros projetos de grande importância para a nação, como o acelerador de partículas, Sirius, e o trem de levitação magnética, Maglev-Cobra. Em 2021, o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) terá uma redução estimada em R$ 4,8 bilhões na previsão orçamentária do governo.
Infelizmente, enquanto parte das forças progressistas e de esquerda abandonam conceitos como luta de classes, imperialismo e soberania nacional, em nome de pautas mais “palatáveis”, o discurso neoliberal grassa nas mentes da população, sem antagonismo radical. Nossas perspectivas se tornam, cada vez mais, sombrias e retrógradas. A derrubada desse decreto inconstitucional, seja através do STF ou do Congresso Nacional, deve ser uma pauta de luta prioritária!
Em que pese o manifesto contra a extinção do Ceitec, assinado por várias entidades, imagino que, a esta altura, deveríamos estar espumando, indignados, gritando e brandindo espadas e escudos, como bárbaros às portas do império! Ou, ao menos, de sua sucursal. O que está acontecendo?
Publicado originalmente em: Extinção do CEITEC é crime de lesa-pátria e traição nacional - Vermelho
*Professor no Centro para Desenvolvimento do Potencial e Talento – CEDET, Mestrando em Educação Profissional e Tecnológica, IFSULDEMINAS – Campus Poços de Caldas e Presidente do PCdoB Poços de Caldas/MG
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