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terça-feira, 18 de outubro de 2016

A pesquisa e a divulgação científica como condição para o desenvolvimento socioeconômico e cultural do Brasil

*Por Paulo Basso

Algumas coisas parecem fadadas ao fracasso. Entretanto, não quero e não vou acreditar que uma destas coisas é o Brasil.


Iniciamos as postagens no blog paulosciencebasso.blogspot.com, em 22/01/2013, com um artigo do jornalista Flávio de Carvalho Serpa, da mesma data, intitulado “Ciência na corda bamba”. Na ocasião, o texto relatava a preocupação com o fato do The New York Times ter extinguido sua editoria de Meio Ambiente, o que preocupou ecólogos de todo o planeta, já que a referida seção editorial possibilitava discussões com qualidade e sensatez, acerca de um assunto cercado de paixões, interesses, alarmismos apocalípticos e ceticismo desdenhoso sobre a situação ambiental e climática do nosso planeta.

A verdadeira preocupação era com o espaço cada vez mais restrito destinado a assuntos relacionados à Ciência e Tecnologia, nos meios de comunicação – dada a importância e o impacto do conhecimento científico e tecnológico na vida futura das pessoas.

Finalmente, o jornalista descrevia a decadência de credibilidade do jornal Estado de S. Paulo, que no início do século XX foi um dos únicos jornais do Hemisfério Sul a noticiar o surgimento da Teoria da Relatividade, de Albert Einstein, mas que, depois de 1964, teve suas relações com a comunidade científica e acadêmica irremediávelmente "azedadas". Para além da questão política, o jornal passou a adotar posturas rígidas e mesmo anti-intelectuais – chegando a demitir funcionários que se recusaram a publicar notícias sem embasamento científico, ou que publicaram artigos que ousavam contrariar os interesses de indústrias poderosas, em defesa da saúde pública.

Pouco mais de dois anos depois desta primeira postagem no blog, em julho de 2015, durante a 67ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência, realizada na Universidade de São Carlos – SP, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação – MCTI, divulgou uma pesquisa sobre a percepção que os brasileiros têm do universo científico.

Contrariando a visão dos editoriais dos grandes jornais, nacionais e internacionais, o resultado foi muito animador. Na visão dos entrevistados, positiva e otimista, a Ciência e a Tecnologia devem receber maior incentivo e financiamento, por serem fatores de melhoria da qualidade de vida das pessoas.

De uma maneira geral, os cidadãos brasileiros dizem se interessar tanto pelos temas científicos e tecnológicos quanto por religião! Mais de 78% da população priorizam essas áreas de interesse.

Entretanto, o que causa preocupação é que a maior parte do acesso a estas informações é feita de maneira não qualificada, principalmente pela TV. É escasso o acesso por visualização direta da atividade científica, seja em feiras, olimpíadas ou museus.

Torna-se evidente, portanto, o desafio que o Brasil tem de investir em pesquisas e na criação de uma mentalidade científica – o acesso precoce à Ciência gera um ciclo virtuoso de mais produção e divulgação científica.

O ministro do MCTI à época, Aldo Rabelo, reforçava que “Desse horizontalismo da curiosidade muito precisamos para formar pesquisadores voltados para a solução dos problemas nacionais. A face mais popular da Ciência, e de suas aplicações, é a que desvenda o mundo, cria vacinas, cura doenças, inventa utensílios. Mas sua vertente econômica é essencial ao progresso de um povo. A grande tarefa do Brasil nesse campo é aumentar a capacitação em tecnologia e inovação na indústria e no setor de serviços, para gerarmos mais competitividade, emprego, renda – e assim aumentar o desenvolvimento em benefício de todos”.

Em setembro deste ano, a página de petições da comunidade aavaaz.org, sob o título “Governo Federal, Deputados Federais, Senadores: Atualizem em 20% o orçamento da Ciência e Tecnologia”, pertinentemente alertava que “Uma nação só se faz grandiosa com investimento. Infelizmente, a comunidade científica tem sido surpreendida com duros cortes que já comprometem pesquisas e pesquisadores (bolsistas), peças fundamentais para o desenvolvimento tecnológico do país. O orçamento atual do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações é de R$ 4,6 bilhões, dos quais R$ 500 milhões estão contingenciados. Este valor é 27% menor do que em 2006 e 52% aquém do que era em 2010. […] Além do corte de 20% nas bolsas de iniciação científica, programa de importância para a formação da nova geração de cientistas”.

No último dia 11/10, a presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC, Helena Nader, analisou que “A Câmara deu um passo muito negativo para trás no desenvolvimento do País”, sobre a aprovação da PEC nº 241 – que congela as despesas federais para os próximos 20 anos. “Foi a decisão mais grave para a educação, ciência, tecnologia e inovação tomada no Brasil nos últimos anos” - reforçou a presidente da renomada instituição.

No mesmo dia, 11/10, a SBPC e a Academia Brasileira de Ciências – ABC, encaminharam uma carta aos deputados expressando preocupação com os impactos negativos da medida.

No mesmo sentido, especialistas do Dieese – Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos – alertaram os impactos negativos da medida em áreas sociais, como saúde e educação. Através de uma simulação mostraram a redução considerável (de 47%) dos recursos na educação, por exemplo, caso a PEC vigorasse desde 2002, o que representaria uma perda acumulada de R$ 377,7 bilhões até 2015.

Ontem, 17/10, a SBPC, em carta enviada a todos os senadores, manifesta integral apoio ao PLS 594/2015 que impede cortes e contingenciamentos, estabelecendo que as despesas que sejam destinadas às ações de ciência, tecnologia e inovação não serão objeto de limitação de empenho e movimentação financeira.

A carta ainda reforça a posição de que os investimentos em ciência, tecnologia e inovação, como é sabido por todos, são o principal pilar de sustentação para a evolução dos países que buscam preservar uma democracia baseada no bem-estar social e no desenvolvimento econômico.

Desta maneira, é prudente perguntar quais são os reais interesses por traz das ações do Governo Interino. Posto que interino, deveria fazer um amplo debate com a sociedade, e com suas diversas instituições e segmentos. Não é demais lembrar que os atuais ocupantes do Palácio do Planalto não passaram pelo crivo das urnas, para decidir questões que podem comprometer irreversivelmente o futuro da nossa nação e de seus habitantes, atuais e vindouros.

E entre as principais destas questões, encontrasse a necessidade do implemento da pesquisa e da divulgação científica, como já apontado por inumeras e respeitáveis instituições e seus representantes mais capacitados.

Jamais seremos um país realmente soberano e socialmente justo se não nos comprometermos, imediatamente, com a produção e socialização do conhecimento. Educando nosso povo, e edificando nossa sonhada nação. Assim, poderemos afirmar com convicção renovada que o nosso Brasil é realmente uma nação que deu certo, estando destinada ao sucesso e ao desenvolvimento sadio e prospero desta e das futuras gerações.

*Historiador e Especialista em Psicologia e Altas Habilidades/Superdotação.

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