*Por Paulo Basso
Algumas coisas parecem fadadas ao
fracasso. Entretanto, não quero e não vou acreditar que uma destas coisas é o
Brasil.
Iniciamos as postagens no blog paulosciencebasso.blogspot.com, em 22/01/2013, com um artigo do
jornalista Flávio de Carvalho Serpa, da mesma data, intitulado “Ciência na
corda bamba”. Na ocasião, o texto relatava a preocupação com o fato do The New
York Times ter extinguido sua editoria de Meio Ambiente, o que preocupou
ecólogos de todo o planeta, já que a referida seção editorial possibilitava
discussões com qualidade e sensatez, acerca de um assunto cercado de paixões,
interesses, alarmismos apocalípticos e ceticismo desdenhoso sobre a situação
ambiental e climática do nosso planeta.
A verdadeira preocupação era
com o espaço cada vez mais restrito destinado a assuntos relacionados à Ciência
e Tecnologia, nos meios de comunicação – dada a importância e o impacto do
conhecimento científico e tecnológico na vida futura das pessoas.
Finalmente, o jornalista descrevia a
decadência de credibilidade do jornal Estado de S. Paulo, que no início do
século XX foi um dos únicos jornais do Hemisfério Sul a noticiar o surgimento
da Teoria da Relatividade, de Albert Einstein, mas que, depois de 1964, teve
suas relações com a comunidade científica e acadêmica irremediávelmente "azedadas". Para além da questão política, o jornal passou a adotar posturas
rígidas e mesmo anti-intelectuais – chegando a demitir funcionários que se
recusaram a publicar notícias sem embasamento científico, ou que publicaram
artigos que ousavam contrariar os interesses de indústrias poderosas, em defesa
da saúde pública.
Pouco mais de dois anos depois desta
primeira postagem no blog, em julho de 2015, durante a 67ª Reunião Anual da
Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência, realizada na Universidade de
São Carlos – SP, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação – MCTI,
divulgou uma pesquisa sobre a percepção que os brasileiros têm do universo
científico.
Contrariando a visão dos editoriais dos
grandes jornais, nacionais e internacionais, o resultado foi muito animador. Na
visão dos entrevistados, positiva e otimista, a Ciência e a Tecnologia devem
receber maior incentivo e financiamento, por serem fatores de melhoria da
qualidade de vida das pessoas.
De uma maneira geral, os cidadãos
brasileiros dizem se interessar tanto pelos temas científicos e tecnológicos
quanto por religião! Mais de 78% da população priorizam essas áreas de
interesse.
Entretanto, o que causa preocupação é
que a maior parte do acesso a estas informações é feita de maneira não
qualificada, principalmente pela TV. É escasso o acesso por visualização direta
da atividade científica, seja em feiras, olimpíadas ou museus.
Torna-se evidente, portanto, o desafio
que o Brasil tem de investir em pesquisas e na criação de uma mentalidade
científica – o acesso precoce à Ciência gera um ciclo virtuoso de mais produção
e divulgação científica.
O ministro do MCTI à época, Aldo Rabelo,
reforçava que “Desse horizontalismo da curiosidade muito precisamos para formar
pesquisadores voltados para a solução dos problemas nacionais. A face mais
popular da Ciência, e de suas aplicações, é a que desvenda o mundo, cria
vacinas, cura doenças, inventa utensílios. Mas sua vertente econômica é
essencial ao progresso de um povo. A grande tarefa do Brasil nesse campo é
aumentar a capacitação em tecnologia e inovação na indústria e no setor de
serviços, para gerarmos mais competitividade, emprego, renda – e assim aumentar
o desenvolvimento em benefício de todos”.
Em setembro deste ano, a página de
petições da comunidade aavaaz.org, sob o título “Governo
Federal, Deputados Federais, Senadores: Atualizem em 20% o orçamento da Ciência
e Tecnologia”, pertinentemente alertava que “Uma nação só se faz grandiosa com
investimento. Infelizmente, a comunidade científica tem sido surpreendida com
duros cortes que já comprometem pesquisas e pesquisadores (bolsistas), peças
fundamentais para o desenvolvimento tecnológico do país. O orçamento atual do
Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações é de R$ 4,6
bilhões, dos quais R$ 500 milhões estão contingenciados. Este valor é 27% menor
do que em 2006 e 52% aquém do que era em 2010. […] Além do corte de 20% nas
bolsas de iniciação científica, programa de importância para a formação da nova
geração de cientistas”.
No
último dia 11/10, a presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da
Ciência – SBPC, Helena Nader, analisou que “A Câmara deu um passo muito
negativo para trás no desenvolvimento do País”, sobre a aprovação da PEC nº 241
– que congela as despesas federais para os próximos 20 anos. “Foi a decisão
mais grave para a educação, ciência, tecnologia e inovação tomada no Brasil nos
últimos anos” - reforçou a presidente da renomada instituição.
No
mesmo dia, 11/10, a SBPC e a Academia Brasileira de Ciências – ABC,
encaminharam uma carta aos deputados expressando preocupação com os impactos
negativos da medida.
No
mesmo sentido, especialistas do Dieese – Departamento Intersindical de
Estatística e Estudos Socioeconômicos – alertaram os impactos negativos da
medida em áreas sociais, como saúde e educação. Através de uma simulação
mostraram a redução considerável (de 47%) dos recursos na educação, por
exemplo, caso a PEC vigorasse desde 2002, o que representaria uma perda
acumulada de R$ 377,7 bilhões até 2015.
Ontem,
17/10, a SBPC, em carta enviada a todos os senadores, manifesta integral apoio
ao PLS 594/2015 que impede cortes e contingenciamentos, estabelecendo que as
despesas que sejam destinadas às ações de ciência, tecnologia e inovação não
serão objeto de limitação de empenho e movimentação financeira.
A
carta ainda reforça a posição de que os investimentos em ciência, tecnologia e
inovação, como é sabido por todos, são o principal pilar de sustentação para a
evolução dos países que buscam preservar uma democracia baseada no bem-estar
social e no desenvolvimento econômico.
Desta maneira, é prudente perguntar quais são os reais interesses por traz das ações do Governo Interino. Posto que interino, deveria fazer um amplo debate com a sociedade, e com suas diversas instituições e segmentos. Não é demais lembrar que os atuais ocupantes do Palácio do Planalto não passaram pelo crivo das urnas, para decidir questões que podem comprometer irreversivelmente o futuro da nossa nação e de seus habitantes, atuais e vindouros.
E entre as principais destas questões, encontrasse a necessidade do implemento da pesquisa e da divulgação científica, como já apontado por inumeras e respeitáveis instituições e seus representantes mais capacitados.
Jamais seremos um país realmente soberano e socialmente justo se não nos comprometermos, imediatamente, com a produção e socialização do conhecimento. Educando nosso povo, e edificando nossa sonhada nação. Assim, poderemos afirmar com convicção renovada que o nosso Brasil é realmente uma nação que deu certo, estando destinada ao sucesso e ao desenvolvimento sadio e prospero desta e das futuras gerações.
*Historiador e Especialista em Psicologia e Altas Habilidades/Superdotação.



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