André Cancian
Até aqui, vimos apenas as razões pelas quais o cultivo do conhecimento, principalmente através da leitura, é desejável e útil. Ponderamos sobre a função da reflexão nesse processo. Todavia, para ser justos, não poderíamos deixar de mencionar o aspecto negativo envolvido no ato de ler, ou seja, o lado prático. Mesmo que seu mérito seja inegável, temos algumas observações incômodas a fazer.
Fora do universo tradicional dos iniciados, despreza-se cada vez mais a leitura, porém não sem razão. O primeiro motivo, e o mais óbvio, é que há modos cada vez mais práticos de chegarmos a aprender alguma coisa sem abrir um livro. O conhecimento não apenas já chega pré-mastigado, como também pré-digerido. Não é sequer necessário pensar muito para absorvê-lo. Seria ilógico que alguém escolhesse o caminho de espinhos quando pode aprender o que quiser simplesmente apertando o play. Como somos naturalmente econômicos em nossos esforços, é óbvio que escolheríamos o modo mais fácil de incorporar alguma informação quando o objetivo é apenas tê-la na cabeça, não esperar que os demais nos elogiem por isso. Contudo, na defesa da leitura, muitos se tornam quase irracionais.
A imagem que se pinta dos livros, de alguém que lê livros, é rodeada por uma aura mística. Tem-se a impressão de que quem aprendesse exatamente a mesma lição através de um vídeo nunca se equipararia àquele que a aprendeu pela leitura. Há um quê de exagero nisso. O ato de ler não significa reflexão necessariamente, tampouco vídeos implicam irreflexão.
A presunção de que devoradores de livros sejam espíritos elevados, seres inerentemente pensantes, nasce da ideia razoável de que alguém dado à atividade penosa de ler também esteja familiarizado com o processo cansativo de refletir. Faz sentido, mas, à primeira vista, temos uma imagem muito elogiosa que omite o aspecto inconveniente da questão, ou seja, a dor, mental e também física.
Se a leitura fosse algo agradável por si só, não haveria necessidade de incentivá-la, assim como ninguém perde tempo salientando o valor do dinheiro. É extremamente duvidoso que alguém, em sã consciência, realmente veja na leitura um fim em si mesmo, senão por nunca ter pensado no assunto com honestidade. É tão ilógico quanto dizer que fazemos exercícios físicos como um fim em si mesmo, sem nenhum interesse no bem-estar, na saúde, na beleza etc. Não sejamos tão ingênuos.
Sentar-se numa poltrona, debruçar-se sobre um livro e passar horas a fio decodificando palavras é algo muito incômodo fisicamente. Não conseguimos permanecer muito tempo parados sem que logo comecem a surgir efeitos como cãibras, coceiras, dores nas costas, membros dormentes e vistas cansadas. Todos esses incômodos envolvidos no ato físico de ler evidenciam que se trata de uma atividade artificial, que requer uma grande quantidade de treinamento para que possamos suportá-la por longos períodos. Condicionar-se fisicamente à leitura de livros é algo que requer muita disciplina bruta, pois se trata de um procedimento extremamente maçante e estranho à nossa natureza. Do ponto de vista psicológico, o ato de ler pode ser resumido como um esforço mental intenso e prolongado, no qual o objetivo consiste em manter nossa atenção fixa em um único ponto no qual não há absolutamente nada de cativante ocorrendo. É uma atividade cansativa e tediosa como cruzar um oceano de páginas num pequeno barco a remo. Cada remada é como um esforço da imaginação que nos permite ver a paisagem pintada pelo autor.
Não importa quão interessante seja aquilo que estamos lendo, o ato de observar pequenos caracteres ao longo de inúmeras páginas e disso destilar algum aprendizado é, em si mesmo, um processo extremamente penoso. O prazer nunca está na própria leitura, mas naquilo que aprendemos. Sem dúvida, nossa curiosidade sobre o assunto pode fazer com que não notemos todos esses elementos conscientemente. Porém, caso ainda não estejamos convencidos do caráter insípido da leitura em si, podemos dissipar todas as dúvidas tomando à mão a coisa mais desinteressante que pudermos imaginar, como uma lista telefônica, por exemplo. Não precisaremos ser grandes mestres da introspecção para vislumbrar uma constelação de elementos incômodos que dizem em uníssono: pare de perder tempo. É impossível não darmos por eles e, por fim, termos lido de capa a capa algo tão estéril num descuido ante uma atividade tão prazerosa como a leitura. Isso simplesmente não acontece. No melhor dos casos, elogiamos aquele que tem o hábito de ler exatamente por ter conseguido superar todas essas dificuldades, sendo capaz de realizar uma tarefa bastante árdua. Apenas indivíduos infectados por um pedantismo elevado à demência chegam a afirmar que se sentem transportados a um mundo de prazeres ao ler, esperando ainda que acreditemos. Como qualquer exercício, a leitura é uma tarefa essencialmente desagradável. Trata-se de algo edificante, não prazeroso. O prazer é colhido como uma exceção, como um efeito colateral ultravalorizado.
Como em qualquer área da atividade humana, ninguém se daria ao trabalho de ler sem que houvesse alguma expectativa de recompensa. Imaginemos com que boa vontade leríamos o mais tedioso dos livros se sua compreensão nos permitisse desvendar a localização de um tesouro — só que o tesouro em questão não são barras de ouro, mas empregos mais bem remunerados e prestígio social, uma vantagem a mais sobre a competição. Isso porque, em regra, ninguém gosta realmente de estudar, mas da sensação de poder proveniente da erudição. Mesmo aqueles raros indivíduos cujo lazer consiste, por vontade própria, na leitura de pesados volumes, não podem ser vistos como exceções, já que encontram no próprio aprendizado motivo suficiente para justificar seu esforço. Ainda assim, seria difícil acreditarmos que não há nenhum motivo, nenhuma ambição inconfessa por detrás de um ócio tão construtivo. Não é outro o motivo pelo qual tantos se orgulham da leitura de longos livros enfadonhos. Sendo um esforço hercúleo cujo lucro líquido em erudição não nos indeniza pelo enfado, passamos a exigir que os demais cubram o prejuízo na forma de reconhecimento.
Nesse sentido, é interessante observar que é muito comum recebermos recomendações de livros e mais livros, todos ótimos, todos excelentes. Lendo-os, entretanto, é raro encontrarmos algo que esteja à altura de tais elogios. Considerando que a maioria dos livros é ruim, inclusive muitos dos clássicos, não espanta que quase tudo o que nos recomendam seja o mais completo lixo. Logicamente, recomendam livros ruins simplesmente porque perderam tempo lendo-os. Elogiam tais livros apenas para elogiarem a si próprios. O tempo é valioso e, quando o investimos, não há volta. No fim de uma leitura, poucos conseguem admitir que apenas perderam tempo. Preferem enganar-se. É importante que estejamos atentos a tal fato, ou perderemos muitas horas em busca de tesouros que simplesmente não existem. O valor dos livros ruins é declarado meramente pela vaidade dos que perderam tempo lendo-os.
Como todos leem esperando, direta ou indiretamente, algum lucro na forma de aprendizado, nenhum tipo de livro é mais odiado que os herméticos, cheios de preliminares, rebuscamentos e rodeios desnecessários. Envolver o sentido de uma ideia com uma dura casca gramatical, como se fosse uma castanha de ouro, é prestar-lhe uma homenagem excessiva. Ideias dignas de valor se fazem reconhecer por si mesmas pelo modo admirável como enriquecem nossa visão, de modo que as sentimos como uma agradável surpresa. Embrulhá-las várias vezes com letras douradas não tornará o conteúdo mais valioso. É comum gastarmos um longo tempo interpretando certo texto pedante e hermético para, no fim, descobrir que seu conteúdo não passava uma obviedade embalada como algo valioso. Com razão o leitor se sentirá enganado, pois o autor, numa tentativa de parecer profundo, complicou suas teorias desnecessariamente.
Por mais difícil que uma ideia seja, por mais orgulho que seu dono possua de tê-la concebido, qualquer esforço no sentido de torná-la mais difícil de ser apreendida não passará de uma valorização excessiva pela qual será punido com o desprezo de seus leitores. Situação semelhante seria a de alguém que deixasse um bilhete preso à geladeira avisando que só voltará mais tarde porque o carro quebrou. Porém, imaginando que isso fará com que levem a sério sua mensagem, escreve o bilhete em latim e o enterra no quintal, deixando preso à geladeira apenas um mapa cheio de mensagens enigmáticas. O esforço para que alguém chegue a compreender seu recado não será compensado pelo valor de suas ideias. Temos a impressão de que indivíduos dessa espécie leram livros difíceis, não entenderam, e então passaram a imitá-los por questão de estilo, pensando que é glamoroso dizer banalidades incompreensíveis. Seria mais justo que tais autores escrevessem livros sobre enigmas, palavras cruzadas ou charadas, pois ao menos assim seus leitores não sentiriam que estão diante de um impostor, de alguém que escreve para esconder seus pensamentos.
A clareza na exposição das ideias é o sinal distintivo de um autor que confia no valor daquilo que diz. Deixar que, sob o pretexto do estilo, ideias óbvias sejam adornadas e maquiadas até se tornarem irreconhecíveis é a admissão de que, em si mesmas, não valem sequer o papel em que estão impressas. É perdoável que, por exemplo, na poesia, uma área que valoriza a estética tanto quanto o conteúdo, haja passagens que devam ser muito interpretadas para que se tornem compreensíveis, mas isso apenas se justifica se, igualmente, o efeito estético resultante estiver à altura da dificuldade de interpretação. Como se, depois de passar um longo tempo tentando descobrir o segredo de um cofre, víssemos em seu interior um objeto tão belo que nos fizesse, com um sorriso no rosto, esquecer todo o esforço necessário para abri-lo. Mas é comum, pelo contrário, encontrarmos no interior do cofre apenas um bilhete dizendo “parabéns, caro leitor, pois demonstrou ter inteligência para resolver meu enigma; sua recompensa é tê-lo resolvido; sorria”. É impossível não revoltar-se como quem, no fim no mês, não recebesse salário algum, mas apenas um bilhete elogioso. Ler poesia é como ouvir música com os olhos: se não nos encanta, não serve para nada.
Aquele que não quer ser compreendido deveria escolher o caminho mais fácil: não escrever. Quem produz textos para si próprio, sem qualquer preocupação em torná-lo apresentável àqueles que os lerão, deveria rabiscar diários, não publicar livros. O fato de um assunto ser pessoal não justifica textos confusos, pois é perfeitamente possível ser claro em assuntos pessoais. Se tivermos um domínio razoável da língua e um interesse sincero em ser compreendidos, não haverá dificuldade alguma. Porém, se não conseguimos colocar no papel aquilo que pensamos, isso ocorre porque nossos próprios pensamentos são confusos até para nós, em geral porque nunca pensamos no assunto sobre o qual paradoxalmente estamos tentando escrever. Textos confusos nascem quando tentamos escrever sobre aquilo que não entendemos. Nessa situação, em vez de explicar, limitamo-nos a reproduzir, dentro da norma culta, a confusão que há em nossas cabeças. Deveríamos nos preocupar em dominar o assunto antes de nos pronunciarmos sobre ele. Ademais, como há inúmeros autores que conseguem fazer-se compreender perfeitamente bem, a culpa não pode ser da linguagem. Assim como falar, escrever é fácil. Difícil não é escrever, mas pensar com clareza.
Temos outro sinal característico da pobreza de uma ideia quando o autor se dirige ao leitor em primeira pessoa, numa tentativa de assegurar que devemos acreditar em sua palavra. Se o autor não consegue conquistar a confiança de seus leitores pela honestidade na exposição de suas ideias, pouca diferença fará que apareça pessoalmente, seja entre parênteses, em notas de rodapé ou em sua porta, confirmando que é absolutamente digno de consideração. Quando o autor charlatão percebe a debilidade de uma ideia, não vê outra saída senão vendê-la pessoalmente, como se sua mera presença fosse suficiente para conferir qualquer autoridade a uma ideia tola. Não há coisa mais desagradável que ler esses escritores que tentam se autopromover conversando diretamente com os leitores. É um sinal tão evidente de desespero que mais parece uma confissão de incompetência. Só um parvo compraria uma ideia por compaixão, comovido pela incapacidade intelectual do autor. Vemos poemas falando de versos e da caneta que os escreve, livros falando de seus parágrafos e esclarecendo-os, autores conversando com leitores em primeira pessoa. Isso é ridículo. A metalinguagem só é admissível como um prefácio, uma apresentação. Para além disso, se empregada suficientemente bem, será no máximo uma excentricidade, um recurso de estilo dos que dispõem de gênio suficiente para dar-se a esse luxo como uma demonstração de excesso de capacidade. Quando o caso não for nada disso, como geralmente não é, o autor que possua qualquer dignidade simplesmente deve partir e deixar que suas ideias falem por si próprias. Não nos importa a opinião pessoal que tenha a respeito desta ou daquela ideia, interromper a todo o momento sua exposição para cumprimentar o leitor pessoalmente e prestar-lhe satisfações, explicações e porquês sobre os detalhes mais ínfimos da atividade que somente diz respeito a ele próprio é uma falta de respeito para com seu público, um insulto à inteligência daqueles que se dispuseram a ler seus livros. Não compramos refrigerantes esperando encontrar em seu rótulo, em vez de sua composição química, uma confissão verborrágica do fabricante a respeito das duras penas envolvidas na elaboração do produto, explicando que as matérias-primas exigem um longo e cuidadoso processamento. Não esperamos palavras sobre a árdua competição com empresas rivais ou sobre como foi sua luta para comprovar a patente de sua fórmula. Queremos apenas bebê-lo, não entender como é feito. O produtor que se vire com seus problemas pessoais, pois foi essa a atividade que escolheu para sua vida. Não somos obrigados a sofrer ouvindo seus lamentos. Sendo que a incompetência não adoça bebidas ruins, nenhuma explicação nos fará engoli-las.
É muito comum também que se tente passar confiança aos leitores através da citação de autores célebres, e isso equivale mais ou menos a uma fotografia na qual vemos o autor e a celebridade se cumprimentando como bons e velhos amigos. Também não passa de uma carta de recomendação assinada por ele próprio. A não ser que as palavras citadas sejam absolutamente necessárias como referência, não é mais que a admissão do autor quanto à sua incapacidade ou preguiça de dizer o mesmo com suas próprias palavras. Seria como se, numa entrevista de emprego, em vez de demonstrar suas próprias habilidades, fizesse menção a todas as pessoas importantes que conhece ou com as quais tem parentesco. Se quiséssemos saber aquilo que certo autor disse a respeito de um assunto qualquer, teríamos simplesmente comprado seu livro. Não inspira confiança que um autor cite autoridades constantemente sob o pretexto de seu caráter ilustrativo, pois isso somente ilustra sua própria insegurança, imaginando que ninguém ousaria contestar os pensamentos de alguém que possui conhecidos tão influentes. É o que acontece no caso do indivíduo que, apesar de sua erudição, é incapaz de pensar por si próprio, que não se dá ao trabalho de ruminar. Em vez de destilar daquilo que lê apenas a essência e misturá-la naturalmente à sua visão de mundo — algo que será propriamente interpretado como uma influência —, simplesmente joga na mistura pedaços de conceitos tão mal digeridos que ficam boiando no caldo de suas ideias como pedaços de cortiça que servem apenas para preencher páginas vazias. Talvez esse autor devesse considerar um emprego na área de compilação, já que muitas vezes, num capítulo todo, as únicas palavras que prendem nossa atenção são exatamente as citações, rodeadas por um deserto prolixo de ideias sem valor.
Seria melhor, em vez de simplesmente recortar ideias prontas, absorver a essência de tais ideias e integrá-la organicamente à nossa visão. Isso ao menos prova que refletimos sobre o assunto com profundidade suficiente para que a mistura resultante seja perfeitamente homogênea. Assim podemos dizer, com justiça, que tais ideias são realmente nossas, que temos o direito de usá-las como bem entendermos. Isso pode parecer uma desculpa para a falta de originalidade, mas, seja qual for a ideia que tenhamos, por mais genial, é extremamente improvável que ninguém a tenha pensado antes de nós. Mesmo quando chegamos a certa conclusão sozinhos, por experiência própria, não precisamos de mais que alguns minutos de pesquisa para perceber a infinidade de indivíduos que já disseram o mesmo muito antes de termos nascido, e não raro numa forma muito mais bem acabada.
O único motivo para que se continue escrevendo a respeito de assuntos sobre os quais quase tudo já foi dito consiste em reciclá-los, ou seja, atualizá-los nos pequenos detalhes que vieram à luz somente no momento presente, vesti-los com roupagens modernas e tirar fotos recentes com equipamentos mais sofisticados, explorar melhor seus detalhes e ângulos; também fazendo o papel de coveiros, enterrando os pensamentos aparentados que não tenham sobrevivido à provação do tempo, realizando todas as cerimônias necessárias para evitar que seus fantasmas continuem perambulando entre os vivos.
Desse modo, qualquer pretensão à originalidade deve ser vista com suspeita, já que em geral não é mais que um indício de ingenuidade. É confortante acreditarmos que fomos os primeiros a desflorar a verdade à qual nos casamos, mas em regra apenas preferimos não saber quantos outros já a tiveram como esposa antes de nós. Não é outro o motivo de nos sentirmos indignados quando descobrimos que não fomos os primeiros a tê-la ao lado — também não seremos os últimos. Por mais sedutora que seja a verdade, sempre será enganosa a ideia de que poderemos tê-la somente para nós próprios. Ela sobreviverá às nossas custas enquanto pudermos sustentá-la, partindo tão logo alguém oferecer-lhe melhores condições de vida.
Ler, em si mesmo, é um esforço penoso o bastante para que nos sintamos justificados em jogar ao lixo qualquer livro escrito com o objetivo de fazer com que seus leitores desperdicem suas vidas decifrando banalidades. Se considerarmos nosso tempo algo minimamente valioso, concluiremos que a maioria dos livros simplesmente não merece ser lida. Ler livros que nos desagradam é tão tolo quanto planejar um fim de semana junto a uma pessoa com a qual não temos a menor afinidade: não nos acrescentará nada, ficaremos entediados, e isso será nossa culpa, pois, diante de tantos livros bons, escolhemos os ruins apenas para provar que conseguimos engolir o lixo que está na moda. Faremos muito melhor em ler e reler os clássicos que em vagar pelo deserto de ideias ocas e autores hipócritas que, não tendo nenhuma coisa séria a dizer, escrevem livros como que para brincar com nossas caras.
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