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sábado, 18 de maio de 2013

Sobre a leitura e a reflexão (Parte I)


André Cancian

Há um abismo entre a erudição mecânica e a erudição refletida. Uma grande quantidade de conhecimento desordenada não é útil como uma pequena quantidade sobre a qual se refletiu, sobre a qual se ponderou, que veio a tornar-se parte da bagagem do indivíduo, não como um penduricalho, mas como o próprio tecido de seu conhecimento, o mesmo que orienta sua vida prática. Muitos cultivam uma vida intelectual para impressionar os demais com citações sofisticadas e posturas excêntricas. Decoram um punhado de frases célebres que serão proferidas no momento oportuno como uma prova de inteligência. Leem obras complexas e obscuras apenas para demonstrar que seu intelecto é capaz de penetrar os mistérios mais profundos e concatenar as ideias mais mal amarradas. Tal conhecimento, entretanto, não lhes serve para nada. Trata-se somente de uma competição entre vaidades eruditas. Caso nossa intenção seja conhecer os benefícios autênticos da erudição, o primeiro passo consiste em abandonar a ideia de que, quanto mais, melhor. O segundo consiste em diminuir a distância entre nossas vidas e nosso conhecimento, de modo que, por fim, viver e conhecer tornem-se indissociáveis. Para tanto, precisamos ser organizados e metódicos em nosso aprendizado. Deixando de lado o pedantismo, passamos a cultivar uma erudição refletida e coesa, que se confunde com nós mesmos.
Tenhamos em mente que o pensamento crítico, a ciência, a erudição, a filosofia só possuem valor na medida em que puderem ser vinculados à realidade, não necessariamente numa abordagem prática, mas numa visão mais esclarecida a respeito do mundo. Possuir uma vasta erudição baseada num conhecimento fechado em si mesmo não passa de um grande desvario. Eruditos dessa espécie pensam que o conhecimento nada tem a ver com a realidade. Enquanto possuidores desse saber, julgam que só devem satisfação às referências bibliográficas. Trancados nesse ponto de vista, passam a louvar o conhecimento como um fim em si mesmo, tornando-se incapazes de situar aquilo que sabem até nas questões mais elementares.
Por mais que estudemos, só possuímos realmente um conhecimento quando conseguimos justificá-lo, seja para nós mesmos ou para outrem, e isso em qualquer área de nosso saber. Quem aceita ideias sem qualquer critério transforma sua mente num ferro-velho no qual tudo se mistura indistintamente. Como resultado, passamos a defender ideias que sequer compreendemos claramente. Quando confrontados, começamos a gaguejar e, embaraçados, dizemos que o assunto é demasiado complexo. Porém, isso acontece apenas porque nunca refletimos sobre o assunto. Quem sabe reproduzir mas não sabe explicar suas próprias opiniões é um impostor no mundo intelectual, e será desmascarado, cedo ou tarde, assim que se confrontar com um pensador autêntico.
Para que consigamos pensar com clareza, nossa visão de mundo deve ser um todo organizado, sem grandes cisões entre a perspectiva teórica e a prática. Quando estudarmos algo, caberá a nós a tarefa de vincular esse aprendizado a todas as facetas da realidade. Como resultado, passaremos a viver aquilo que pensamos. Cada lição nos enriquecerá, nos tornará mais competentes em lidar com o mundo. Assim, quando chamamos um garçom e pedimos água, sabemos que falamos em português devido ao nosso passado colonial. Sabemos que a água é composta de oxigênio e hidrogênio, o mesmo oxigênio que as plantas liberam como resultado da fotossíntese, que surgiu como resposta a uma crise energética ocorrida nos primórdios da vida que, bilhões de anos depois, resultou em nossa existência, e assim por diante. Quando nosso conhecimento é coeso, encontramos relações mesmo entre os fatos mais distantes. Em nossa visão de mundo, nenhum fato deve ficar isolado, pois aquilo que aprendemos só passa a fazer sentido depois de articulado ao conjunto total de nossos conhecimentos.
Se imaginarmos nossas mentes como uma casa, quando simplesmente decoramos fatos e teorias, estamos, na verdade, jogando objetos dentro dela sem qualquer ordem: deixamo-los espalhados pelo chão. Caso um dia precisemos deles, provavelmente não conseguiremos encontrá-los; caso alguém pergunte para que servem, não saberemos responder. Aqueles cômodos nos quais colocamos nossas crenças são os que ficam trancados à evidência: só entramos neles com a luz apagada; não nos permitimos ver, muito menos tocar os objetos em seu interior. Ou seja, desperdiçamos espaços valiosos com algo que na verdade não nos pertence, pois os dedicamos à superstição. A reflexão, nessa ótica, seria o hábito de mantermos nossas casas limpas e arrumadas, organizando aquilo que aprendemos dentro de uma estrutura lógica e funcional, para que isso nos ajude no dia a dia. Também significa nos livrarmos de ideias inúteis, jogar ao lixo as teorias que nos fazem tropeçar. Essa disciplina nos torna lúcidos, donos de nosso conhecimento.
Consideremos também que boa parte da tarefa de organização e limpeza é feita inconscientemente. O cérebro humano é seletivo no que deve absorver, pois temos limitações físicas quanto ao que podemos carregar em nossas mentes. O resto simplesmente se perde no abismo do esquecimento. Fatos desconexos e sem sentido são esquecidos porque não têm vínculo com nossas vidas. Em nossas mentes, aquilo que não se usa se perde, e só conseguimos usar aquilo que tem alguma utilidade. Isso significa que não aprendemos algo apenas porque consta na grade oficial com o carimbo do tu deves, tampouco porque está listado na bibliografia recomendada. O aprendizado só acontece com naturalidade quando temos algum interesse no assunto em questão, quando é particularmente útil aos nossos propósitos ou tem algum sentido que nos diz respeito. Quando já temos uma estrutura prévia à qual incorporar o novo conhecimento, basta que tenhamos algum motivo para considerá-lo relevante, e o aprendizado ocorrerá quase automaticamente. Se o conteúdo a ser absorvido, pelo contrário, não estiver situado em nossa área de interesse, não haverá como esconder o tédio, o repúdio àquilo que será um esforço desapaixonado, uma tortura inútil, pois sabemos que tudo será esquecido.
A questão, portanto, não é como enxertar em nossas cabeças o conteúdo de todos os livros que julgamos valiosos, pensando que o dever estará cumprido — isso equivaleria a decorar listas telefônicas. É necessário que haja uma lógica justificando, dando sentido e finalidade ao que estudamos. Cavar um grande buraco em nossos quintais, por exemplo, é algo que requer grande esforço e, a princípio, não faz sentido algum. Se acrescentarmos que a escavação será para fazermos uma piscina, o trabalho terá sentido, mas não justificará o esforço. Ele só será justificado se, obviamente, gostarmos de nadar — do contrário estaremos apenas perdendo tempo na construção de algo que acabará como uma poça de lodo, feita apenas para impressionar os vizinhos.
O pensamento é uma faculdade limitada, porém extremamente versátil, e deve ter diante de si apenas aquilo que lhe é útil. Decorar um livro de capa a capa é algo pouco inteligente. Tal conhecimento ocupará um enorme espaço inutilmente, e precisaremos exercitar nossa memória constantemente para evitar esquecê-lo. Faríamos melhor em memorizar apenas uma versão resumida daquilo que lemos, um índice das relações entre os fatos mais importantes, pois com isso haverá espaço para armazenarmos o conteúdo de diversos livros. Elaborar esse índice de relações é exatamente o processo de refletir. Se, num momento posterior, precisarmos de algum detalhe específico, sabemos que o original estará na estante. O cérebro é mais importante como uma ferramenta para processar dados que para armazená-los, pois para tanto temos bancos de dados digitais estupidamente eficientes.
Quando abrimos um livro, estamos diante de um sem-número de ideias que não cabem todas em nosso cérebro. Devemos escolher apenas aquelas que nos interessam pessoalmente, para depois refletir sobre elas. Contudo, para extrair qualquer sentido de uma leitura, ainda mais de obras densas e abstratas, é necessário possuir pleno domínio das próprias ferramentas intelectuais. Não basta saber ler, abrir os olhos, seguir as linhas e esperar que as coisas aconteçam magicamente: é necessário ruminar, concluir, por a mão na massa, algo que requer muito esforço e tato — razão pela qual a sabedoria dos livros só é acessível àqueles que pensam. Portanto, se não soubermos exatamente o que procuramos numa obra, não conseguiremos distinguir entre o útil e o inútil. Ansiosos, tentaremos absorver tudo e, como isso é impossível, não absorveremos nada.
O melhor modo de estabelecer um critério de utilidade consiste em peneirar aquilo que nos é apresentado, selecionando apenas o que pudermos agregar coerentemente à nossa visão de mundo. Pode parecer lamentável que não possamos armazenar tudo, mas, assim como não nos lembramos de todas as experiências que resultaram em nosso conhecimento atual, não precisamos nos lembrar de cada página lida, apenas da lição principal, ou apenas de uma lição particularmente útil. Assim como os alimentos que ingerimos, as leituras só passarão a fazer parte de nossos cérebros depois de digeridas, nunca em seu estado bruto — incorporamos as informações úteis e descartamos o resto. Nesse sentido, aqueles que não estudam terão um intelecto fraco e desnutrido; os que estudam compulsivamente sem refletir terão uma erudição obesa e letárgica.
Diante de um livro, é comum alguns pensarem que aquelas letrinhas pouco têm a ver com suas vidas. Quando forçados, leem a contragosto como quem faz um favor aos demais. Entretanto, uma resposta instintiva e positiva a essa questão é o pressuposto de qualquer aprendizado. Sem isso, qualquer estudo será tempo escorrendo pelo ralo. Todas as palavras lidas serão deixadas ao vento. O conceito de leitura será reduzido a uma corrida na qual nossos olhos devem percorrer as linhas o mais rapidamente possível a fim de que reste tempo para fazermos aquilo que nos importa. Todo estudo será associado a uma crescente e justificável repulsa em digerir algo que não faz sentido e, por isso mesmo, acabará vomitado. É evidente que, quando não temos interesse, não nos damos ao trabalho de relacionar os conceitos, de pensar sobre o que lemos. Parece uma perda de tempo dupla: além de ler, ainda temos de pensar sobre o assunto — mas esse é o único modo de incorporá-lo à nossa visão de mundo. Sem reflexão, abrimos mão exatamente da realidade daquilo que lemos, deixamos de dar o último passo, que é o mais interessante. Como alguém que, depois de ler um livro de culinária, deixa de empregá-lo em suas refeições, pois aprender as receitas já foi muito cansativo. Eram receitas teóricas, que nada têm a ver com aquilo que se faz na cozinha.
A maioria dos indivíduos sequer reconhece que, ao ler, está entrando em contato com outra pessoa que tenta dizer-lhe alguma coisa, exatamente como em uma conversa. Há uma espécie de repúdio automático, um preconceito que a impede de reconhecer que ler se trata de entrar em contato com as ideias de outro ser humano, não de uma atividade excêntrica à qual alguns indivíduos superdotados e chatos se dedicam por motivos incompreensíveis. Parece que, num diário, numa carta, fala-se de um mundo real; num livro, fala-se de um mundo imaginário que não nos diz respeito para além das portas da universidade. Nem todos os livros dizem a verdade porque humanos também mentem por escrito, assim como em conversas; nem todos são interessantes porque nem todos têm algo interessante a dizer, ou porque não sabem expressá-lo de modo cativante. Assim como dialogar com certas pessoas pode ser entediante e, com outras, muito interessante, o mesmo ocorre com os livros. Pelo mesmo motivo que somos criteriosos na seleção de nossas amizades, devemos escolher cuidadosamente os livros aos quais dedicamos nosso tempo. Repudiar a leitura porque alguns livros são maçantes é o mesmo que rejeitar quaisquer amizades porque certos indivíduos nos aborrecem.
Muitos menosprezam a leitura porque, quando o assunto é conhecimento, parece-nos à primeira vista que aprender algo numa conversa, numa aula ou numa leitura seria exatamente a mesma coisa. Que diferença faz se o conhecimento que queremos está na cabeça de outrem ou em folhas de papel? Muita. Em interações sociais, aprendemos muito pouco, e isso por dois motivos. O primeiro é que a maioria dos indivíduos tem pouco a nos ensinar que seja de nosso interesse. O segundo é que, mesmo que alguém tenha algo a nos ensinar, e mesmo que esteja disposto a fazê-lo, muitas vezes o conflito de vaidades impede que o aprendizado ocorra. Como priorizamos o teatro social, o conhecimento e a reflexão acabam em segundo plano. Perdemos inúmeras oportunidades de aprender simplesmente porque estamos preocupados demais em impressionar, em provar que somos superiores. Aquilo que temos a dizer sempre parece mais importante que aquilo que temos a ouvir. O fato, entretanto, é que só aprendemos quando estamos com a boca fechada. Ao repetir como papagaios aquilo que já sabemos, isso só garante que nada de novo chegará aos nossos cérebros. Numa leitura a situação é diferente, pois não sentimos nossa vaidade ser afrontada. Não estamos disputando nem tentando provar algo, pois não há testemunhas. Ninguém rirá se formos refutados, se não entendermos alguma passagem. Estamos anônimos, protegidos da vergonha pública. Então, enquanto numa conversa, por motivos óbvios, não podemos falar tudo o que nos passa pela cabeça, numa leitura poderemos pensar o que quisermos sem qualquer receio.
Isso explica por que aquele que lê aprende muito mais que aquele que apenas conversa. Teoricamente, o resultado deveria ser o mesmo, mas não é. Num debate intelectual, quase tudo se resume à guerra de orgulhos, à troca de farpas. Se o que queremos é conhecimento, estamos apenas perdendo tempo. Por outro lado, numa leitura, também há uma guerra, só que de ideias, coisa que favorece grandemente nosso crescimento intelectual. A leitura, mesmo sendo um diálogo, cria uma atmosfera impessoal extremamente propícia ao aprendizado, colocando não o ego, mas a reflexão como prioridade. Imersos num livro, situamo-nos num universo no qual inexistem interesses pessoais e sociais. Isso tudo fica em segundo plano. No domínio do intelecto, tudo é conhecimento, e o único interesse é o entendimento. Sem espectadores, a vaidade adormece, e vemo-nos aptos a refletir livremente. Esse distanciamento é o que torna a leitura eficiente, mas também gera a impressão de que livros não dizem respeito à realidade. Parece-nos que o autor é um personagem de ficção. Parece-nos que ele é o próprio livro, que nasceu dentro dele, não que o escreveu. Sentimo-nos um pouco ridículos ao discutir com um bloco de papel, pois temos a impressão de estar falando sozinhos, ou seja, perdendo tempo. Se nossa intenção for fazer amigos ou impressionar os demais, isso não deixa de ser verdade. Entretanto, se quisermos aprender, o diálogo com livros é o melhor caminho.
Acrescentemos que estaremos dialogando com alguém que, ao menos no assunto em questão, provavelmente sabe muito mais que nós. Aquilo que custou a outrem anos de disciplina, pesquisa, estudo e reflexão está condensado em páginas que podemos ler em poucas horas. Como podemos pensar que sua leitura é uma perda de tempo? Levaríamos o mesmo tempo, ou talvez mais, para chegar às mesmas conclusões por nós mesmos. O quebra-cabeça já está resolvido, e cabe a nós apenas entender os detalhes da montagem. Algumas horas de leitura, somadas a outras tantas de reflexão, resultam na aquisição de um conhecimento que levou anos para ser lapidado. Se tivermos um mínimo interesse na aquisição daquele conhecimento, temos de admitir que, com a leitura, ganhamos tempo. Desse modo, quando empregada inteligentemente, a leitura nos alavanca, nos poupa muito esforço. Conseguimos extrapolar as limitações do aprendizado individual e evitar muitos erros. Nosso entendimento torna-se capaz de investigar lugares extremamente distantes, que nos seriam inacessíveis caso nos limitássemos ao aprendizado proporcionado pelas nossas próprias experiências pessoais. Dentro de poucos anos, nossa visão particular concentra a sabedoria de incontáveis gerações.
Entretanto, quando lemos sem refletir, tornamo-nos eruditos, mas continuamos estúpidos, pois nossa vida não se mistura ao conhecimento. Em nossa ânsia de consumir, compramos coisas sem nos dar a oportunidade de aprender a usá-las. No fim, apenas colecionamos conhecimentos alheios como quem organiza bibliotecas, mas nunca abre os livros.
Nessa situação, os alicerces não estão ruins, pois não há alicerce algum, só um caos no qual cada lado defende que o autor quis dizer isto ou aquilo, e ambos são incapazes de explicar por que isso é importante. Ver o conhecimento sendo debatido como se não se tratasse de uma opinião de outra pessoa é quase uma piada. Levam-se mais a sério as sutilezas gramaticais que a veracidade daquilo que é dito. Como resultado, o conhecimento que se forma na mente dos indivíduos é algo como um arquipélago: caminha-se aos saltos e tropeços entre ilhas ridiculamente pequenas e esparsas, formatadas no padrão ABNT, que nada têm a ver com o continente de suas vidas que, este sim, é contínuo, consistente, pensado, real. Equilibram-se sobre tais ilhas e saltam de modo coreografado apenas para demonstrar que são bons trapezistas intelectuais. Depois do espetáculo, tiram seus uniformes e voltam a usar a própria cabeça.
Quem nunca relacionou a cor de seus olhos à genética, sua condição social à história, suas gírias ao português, uma explosão à física, um macarrão empapado à química, uma cãibra à biologia, pode muito bem saber o que está nos livros, mas nunca refletiu, nunca se deu conta de que o que está nos livros está no mundo, é o mundo e também ele próprio que, de tanto saber, esqueceu-se de pensar.
A preocupação essencial deveria ser o quanto a leitura de certa obra nos enriquece e ajuda pessoalmente. O resto são detalhes desprezíveis, aos quais se dedicam apenas aqueles que perderam de vista a questão essencial. A leitura é de onde tiramos o conhecimento que nos torna capazes de lidar melhor com o mundo tridimensional das alternativas infinitas e das opções limitadas, das questões sem resposta, dos recursos escassos e do tempo curto, levando-nos a fazer a escolhas mais competentes. Lemos porque queremos saber a opinião de outros indivíduos que estudaram as mesmas questões que nos interessam, pois lidaram com os mesmos problemas e talvez tenham encontrado soluções melhores que as nossas, talvez tenham algo a nos ensinar.
Quando terminamos de ler um livro, geralmente temos a impressão de que continuamos os mesmos, assim como continuamos a mesma pessoa que éramos no mês passado, pois a mudança é gradual demais para que consigamos notá-la com clareza. Porém, se considerarmos o quanto crescemos durante um ano de leitura em comparação com um ano de atividades cotidianas, perceberemos seu poder de nos fazer crescer quase exageradamente, como se estivéssemos vendo o mundo por sobre ombros de gigantes. Essa é a razão pela qual os estudiosos parecem mais inteligentes que a maioria, mesmo que possuam apenas uma capacidade intelectual mediana. Seus cérebros tornaram-se ágeis e vigorosos porque os exercitam diariamente; tornaram-se profundos porque o estudo acrescentou-lhes muitos anos de sabedoria, adiantou-lhes a vida. Mas isso só aconteceu porque absorveram o conhecimento ativamente e, através da reflexão, o usaram para constituir a si próprios, não para enfeitar suas conversas. Distinguem-se não pela erudição mecânica, que garante pouco mais que um computador, mas pela capacidade de pensar, pela habilidade em caminhar dentro do campo de sua erudição com clareza, com os passos firmes de quem sabe onde está pisando. Escolhem por si mesmos o que devem ou não incorporar do que o mundo lhes apresenta, e sabem explicar o porquê.
Quando compreendemos que todo livro bem escrito é como um presente, um atalho no labirinto do mundo, buscaremos instintivamente o conhecimento como quem busca o melhor para si próprio. Leremos, mas não absorveremos tudo passivamente. Discutiremos com o autor, refutaremos suas teses infundadas, aceitaremos algumas explicações, faremos perguntas incômodas, adivinharemos nas entrelinhas algumas de suas segundas e terceiras intenções. Haverá uma troca de ideias, da qual tiramos nossas próprias conclusões. Concordando ou não, geralmente ficamos gratos que o autor tenha se dado ao trabalho de compartilhar sua experiência conosco.

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