*Professor Paulo Basso
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| Imagem: www.blogdobruxo.com.br |
Há vinte e sete anos, a banda de rock nacional Legião Urbana lançava o disco, na época de
vinil, intitulado “O descobrimento do Brasil”. A quarta faixa trazia a música Perfeição¸
composta numa parceria entre Renato Russo, Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos. Nos
últimos dias, a música, e principalmente sua letra, tem invadido
recorrentemente meus pensamentos. Na verdade, não consigo vislumbrar um hino
melhor para esse necrológico dia do trabalhe (é só uma gripezinha).
Com uma
atualidade enlouquecedora, logo de início, somos convidados a “celebrar a
estupidez humana”, a estupidez que nega a ciência, que nega as vacinas, que
nega as mortes por Covid-19, que nega a razão, que nega a vida. A estupidez de
uma sociedade que se lança ao colo dos charlatões de toda espécie, que segue
para o abatedouro sob as palavras sibilantes dos autointitulados profetas.
Nesse dia
do trabalhe (senão será demitido), podemos perceber como temos fracassado
enquanto sociedade. Celebramos a morte diariamente, num ritual insano de ódio e
irracionalidade que faria inveja em Thanatos e Hades. Contamos nossos mortos
aos milhares, e achamos normal.
Hoje
comemoramos “como idiotas”, o feriado da volta ao trabalho. Novo slogan da
irresponsabilidade. Sim! Trabalhe, senão a economia vai quebrar!
Nesse dia
do trabalhe (o pior já passou), contemplamos toda a potência da ganância. Da
ganância que celebra a difamação de todos aqueles que contrariam seus
interesses econômicos, que escarnece de todos que possuem a sensatez necessária
para compreender a catástrofe que se avizinha, que varrerá vidas e laços para o
nunca mais.
Vamos
“celebrar nossa desunião”, nesse dia do trabalhe (até sufocar). É dia de
comemorar o desmonte dos sindicatos, a retirada dos direitos trabalhistas e previdenciários,
de celebrar a humilhação da “nossa gente que trabalhou honestamente a vida
inteira, e agora não tem mais direito a nada”. É o dia daqueles que desejam “o trabalho
escravo”, mas que se fazem de heróis nacionais nesse “nosso pequeno universo”.
“Vamos
celebrar epidemias”. Vamos enaltecer a hipocrisia das caravanas da morte, dos
cidadãos de bem que saem em seus carros luxuosos, do conforto dos seus
palácios, vestidos com as cores da nossa bandeira, para exigir que a engrenagem
de moer vidas continue ativa, sem pausas, sem quarentenas, sem cuidados... sem
direitos. Hoje é dia do trabalhe (no país mais desigual do mundo).
“Vamos
celebrar a fome” de quem sempre passou fome e vai continuar passando fome. A
fome endêmica, que assola a classe trabalhadora, em uma sociedade que renega suas
dívidas históricas para com os explorados de toda espécie. Dia do trabalhe (você
é um atleta).
Dia do
trabalhe (o governo não se importa com sua vida). Dia da “aberração, de toda a
nossa falta de bom senso”, dia de contrariarmos a OMS, de desconsiderarmos
todos ao alertas, toda a experiência trágica dos outros países, dia de dar um
tapa na cara dos profissionais da saúde que arriscam suas vidas....
Viva o
dia do trabalhe (e daí se as pessoas morrerem?)! Logo poderemos voltar a
comemorar “os mortos nas estradas” e, com certeza, “os mortos por falta de
hospitais” – infelizmente sem festa, velório e caixão!
Aproveitem
o dia do trabalhe (você é descartável), enquanto um governo inepto e despreparado
convence alguns governadores e prefeitos, fracos, a segui-lo em direção ao genocídio
anunciado.
Para as trabalhadoras
e trabalhadores, verdadeiros artífices da riqueza que lhes é subtraída, só a
verdade liberta, “chega de maldade e ilusão”! Devemos construir a primavera da
esperança, antes que esteja tudo morto e enterrado.
*Professor/Facilitador no Centro para Desenvolvimento do Potencial e Talento - CEDET Poços de Caldas-MG, é graduado em História (UNIFEG), pós graduado em Psicologia e Altas Habilidades/Superdotação (UNIARA), pós graduando em História Contemporânea (PUC-Minas) e mestrando em Educação Profissional e Tecnológica (IFSULDEMINAS).
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