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sexta-feira, 1 de maio de 2020

Vamos celebrar! O dia do trabalhe, a morte e a estupidez humana!

*Professor Paulo Basso

Imagem: www.blogdobruxo.com.br

Há vinte e sete anos, a banda de rock nacional Legião Urbana lançava o disco, na época de vinil, intitulado “O descobrimento do Brasil”. A quarta faixa trazia a música Perfeição¸ composta numa parceria entre Renato Russo, Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos. Nos últimos dias, a música, e principalmente sua letra, tem invadido recorrentemente meus pensamentos. Na verdade, não consigo vislumbrar um hino melhor para esse necrológico dia do trabalhe (é só uma gripezinha).
Com uma atualidade enlouquecedora, logo de início, somos convidados a “celebrar a estupidez humana”, a estupidez que nega a ciência, que nega as vacinas, que nega as mortes por Covid-19, que nega a razão, que nega a vida. A estupidez de uma sociedade que se lança ao colo dos charlatões de toda espécie, que segue para o abatedouro sob as palavras sibilantes dos autointitulados profetas.
Nesse dia do trabalhe (senão será demitido), podemos perceber como temos fracassado enquanto sociedade. Celebramos a morte diariamente, num ritual insano de ódio e irracionalidade que faria inveja em Thanatos e Hades. Contamos nossos mortos aos milhares, e achamos normal.
Hoje comemoramos “como idiotas”, o feriado da volta ao trabalho. Novo slogan da irresponsabilidade. Sim! Trabalhe, senão a economia vai quebrar!
Nesse dia do trabalhe (o pior já passou), contemplamos toda a potência da ganância. Da ganância que celebra a difamação de todos aqueles que contrariam seus interesses econômicos, que escarnece de todos que possuem a sensatez necessária para compreender a catástrofe que se avizinha, que varrerá vidas e laços para o nunca mais.
Vamos “celebrar nossa desunião”, nesse dia do trabalhe (até sufocar). É dia de comemorar o desmonte dos sindicatos, a retirada dos direitos trabalhistas e previdenciários, de celebrar a humilhação da “nossa gente que trabalhou honestamente a vida inteira, e agora não tem mais direito a nada”. É o dia daqueles que desejam “o trabalho escravo”, mas que se fazem de heróis nacionais nesse “nosso pequeno universo”.
“Vamos celebrar epidemias”. Vamos enaltecer a hipocrisia das caravanas da morte, dos cidadãos de bem que saem em seus carros luxuosos, do conforto dos seus palácios, vestidos com as cores da nossa bandeira, para exigir que a engrenagem de moer vidas continue ativa, sem pausas, sem quarentenas, sem cuidados... sem direitos. Hoje é dia do trabalhe (no país mais desigual do mundo).
“Vamos celebrar a fome” de quem sempre passou fome e vai continuar passando fome. A fome endêmica, que assola a classe trabalhadora, em uma sociedade que renega suas dívidas históricas para com os explorados de toda espécie. Dia do trabalhe (você é um atleta).
Dia do trabalhe (o governo não se importa com sua vida). Dia da “aberração, de toda a nossa falta de bom senso”, dia de contrariarmos a OMS, de desconsiderarmos todos ao alertas, toda a experiência trágica dos outros países, dia de dar um tapa na cara dos profissionais da saúde que arriscam suas vidas....
Viva o dia do trabalhe (e daí se as pessoas morrerem?)! Logo poderemos voltar a comemorar “os mortos nas estradas” e, com certeza, “os mortos por falta de hospitais” – infelizmente sem festa, velório e caixão!
Aproveitem o dia do trabalhe (você é descartável), enquanto um governo inepto e despreparado convence alguns governadores e prefeitos, fracos, a segui-lo em direção ao genocídio anunciado.
Para as trabalhadoras e trabalhadores, verdadeiros artífices da riqueza que lhes é subtraída, só a verdade liberta, “chega de maldade e ilusão”! Devemos construir a primavera da esperança, antes que esteja tudo morto e enterrado.

*Professor/Facilitador no Centro para Desenvolvimento do Potencial e Talento - CEDET Poços de Caldas-MG, é graduado em História (UNIFEG), pós graduado em Psicologia e Altas Habilidades/Superdotação (UNIARA), pós graduando em História Contemporânea (PUC-Minas) e mestrando em Educação Profissional e Tecnológica (IFSULDEMINAS).
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