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terça-feira, 9 de maio de 2017

Contemplem as estrelas!

Por Paulo Basso*

Uma das atividades desenvolvidas no Centro para o Desenvolvimento do Potencial e Talento (CEDET) é Princípios e Curiosidades Científicas, que procura fomentar o apreço pelo conhecimento e pelo método científico, dando vazão a curiosidades e discussões que, muitas vezes, não encontram ambiente fértil no cotidiano das crianças. É trabalhada a percepção da beleza da ciência e o entendimento do Universo como um laboratório de descobertas.

Neste sentido, costumo solicitar aos alunos um “dever de casa”. Sugiro que, em seus lares, encontrem um local tranquilo, onde possam se deitar e observar o céu noturno por, pelo menos, uma hora. Aconselho que procurem esvaziar suas mentes de qualquer pensamento exterior à tarefa, mas que prestem atenção aos seus sentimentos e emoções.

Somos uma espécie que evoluiu nas savanas e que, ao dominar a cultura do fogo, pôde se reunir sob o seu noturno e contemplá-lo. Fico imaginando o que passava pela mente dos nossos ancestrais. Impressões sobre a caçada do dia? As últimas fofocas no grupo? Reflexões acerca dos fascinantes pontos brilhantes acima de suas cabeças? Não sei se entendiam as estrelas como fogueiras de povos do céu, como olhos de divindades ou de animais ou totens sagrados. Mas, parece indiscutível, a visão daquelas noites estreladas, nas vastidões africanas, devia causar grande comoção.

A observação da natureza, terrena e celeste, foi decisiva para a sobrevivência e desenvolvimento de nossa espécie. Sem a observação dos ciclos das estações, dos períodos de chuva e seca, de plantio, colheita e caça, provavelmente a espécie humana teria encontrado a extinção. Essa contemplação, parece ter deixado indeléveis marcas em nossas mentes. Como indicativo, vamos olhar um pouco do que os alunos desenvolveram em seu “dever de casa”. 

Uma das alunas relatou ter se sentido em harmonia com as estrelas, conversado com elas, que vai lembrar de olhar, todas as noites. Um aluno, disse ter sentido lembranças, não sabendo explicar exatamente do que, “eu estava mais leve”, disse, “a Lua dá conselhos”. Na mesma direção, ficamos sabendo que a observação do céu noturno proporcionou um momento de calma e tranquilidade, “tive uma sensação estranha, não sei explicar!”. Um deles ficou tão absorto que não ouviu o chamado de sua mãe, “senti que estava sozinho no mundo, mas não tive medo”. Outra, “tive vontade de entrar no céu, criei formas com as estrelas, senti alegria, calma e paz”. Outro, ainda, descreveu sua poderosa experiência: “senti beleza, silêncio, alegria e raiva, todos os sentimentos e emoções juntos. Contei 243 estrelas, achei tudo muito bonito”.

Para essas crianças, a observação celeste parece trazer algo ancestral, algo arraigado em nossa constituição mais básica. Também tenho essa sensação. Algo que eleva e conforta. Sentimentos que podem guiar a humanidade, neste momento de turbulência e incertezas. Portanto, contemplem as estrelas!

*Especialista em Psicologia e Altas Habilidades/Superdotação
Publicado no Jornal da Mantiqueira, Domingo, 07/05/2017 (A-3)

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