Por Paulo Basso*
Uma
das atividades desenvolvidas no Centro para o Desenvolvimento do
Potencial e Talento (CEDET) é Princípios
e Curiosidades Científicas,
que
procura fomentar o apreço pelo conhecimento e pelo método
científico, dando vazão a curiosidades e discussões que, muitas
vezes, não encontram ambiente fértil no cotidiano das crianças. É
trabalhada a percepção da beleza da ciência e o entendimento do
Universo como um laboratório de descobertas.
Neste
sentido, costumo solicitar aos alunos um “dever de casa”. Sugiro
que, em seus lares, encontrem um local tranquilo, onde possam se
deitar e observar o céu noturno por, pelo menos, uma hora. Aconselho
que procurem esvaziar suas mentes de qualquer pensamento exterior à
tarefa, mas que prestem atenção aos seus sentimentos e emoções.
Somos
uma espécie que evoluiu nas savanas e que, ao dominar a cultura do
fogo, pôde se reunir sob o seu noturno e contemplá-lo. Fico
imaginando o que passava pela mente dos nossos ancestrais. Impressões
sobre a caçada do dia? As últimas fofocas no grupo? Reflexões
acerca dos fascinantes pontos brilhantes acima de suas cabeças? Não
sei se entendiam as estrelas como fogueiras de povos do céu, como
olhos de divindades ou de animais ou totens sagrados. Mas, parece
indiscutível, a visão daquelas noites estreladas, nas vastidões
africanas, devia causar grande comoção.
A
observação da natureza, terrena e celeste, foi decisiva para a
sobrevivência e desenvolvimento de nossa espécie. Sem a observação
dos ciclos das estações, dos períodos de chuva e seca, de plantio,
colheita e caça, provavelmente a espécie humana teria encontrado a
extinção. Essa contemplação, parece ter deixado indeléveis
marcas em nossas mentes. Como indicativo, vamos olhar um pouco do que
os alunos desenvolveram em seu “dever de casa”.
Uma
das alunas relatou ter se sentido em harmonia com as estrelas,
conversado com elas, que vai lembrar de olhar, todas as noites. Um
aluno, disse ter sentido lembranças, não sabendo explicar
exatamente do que, “eu estava mais leve”, disse, “a Lua dá
conselhos”. Na mesma direção, ficamos sabendo que a observação
do céu noturno proporcionou um momento de calma e tranquilidade,
“tive uma sensação estranha, não sei explicar!”. Um deles
ficou tão absorto que não ouviu o chamado de sua mãe, “senti que
estava sozinho no mundo, mas não tive medo”. Outra, “tive
vontade de entrar no céu, criei formas com as estrelas, senti
alegria, calma e paz”. Outro, ainda, descreveu sua poderosa
experiência: “senti beleza, silêncio, alegria e raiva, todos os
sentimentos e emoções juntos. Contei 243 estrelas, achei tudo muito
bonito”.
Para
essas crianças, a observação celeste parece trazer algo ancestral,
algo arraigado em nossa constituição mais básica. Também tenho
essa sensação. Algo que eleva e conforta. Sentimentos que podem
guiar a humanidade, neste momento de turbulência e incertezas.
Portanto, contemplem as estrelas!
*Especialista
em Psicologia e Altas Habilidades/Superdotação
Publicado no Jornal da Mantiqueira, Domingo, 07/05/2017 (A-3)

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