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sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Charles Darwin, a Teoria da Evolução e a Psicologia Evolucionista – Parte III

Por Paulo Basso*


Até o momento, vimos como se desenvolveu, e se consolidou, o sólido corpo teórico que respalda e comprova, de maneira inequívoca, o fato de que as diversas espécies de seres vivos que habitam nosso planeta são produto de mecanismos evolucionários – sendo os principais a mutação, a recombinação gênica e a seleção natural. Esta última, agindo incansavelmente na manutenção de características favoráveis à sobrevivência e reprodução dos organismos vivos.
Entretanto, dentre aqueles que aceitam o fato de evolução, existe uma parcela que entende que os mecanismos evolucionários agiriam apenas sobre a “constituição física”, ou seja, apenas o corpo, membros e órgãos, seria alvo da seleção natural. Dentro deste entendimento, a mente seria um caso a parte, constituída através de algum processo especial.
Essa visão, de caráter metafísico, não encontra eco na realidade, já que a mente é produto do cérebro. Assim, a constituição mental, em especial a do ser humano, é produto de processos adaptativos, que possibilitaram a nossos ancestrais maior domínio sobre a realidade. Os que possuíam capacidades mentais mais adequadas à sobrevivência tiveram mais sucesso em sobreviver - e transmitiram essas características aos seus descendentes.
Este é o pano de fundo que possibilitou a emergência da Psicologia Evolucionista, que tem como pressuposto que o ser humano evoluiu através de princípios da seleção natural, sendo a mente humana um produto evolutivo.
A Psicologia Evolucionista resulta da síntese entre a Psicologia Cognitiva e a Biologia Evolutiva e engloba conhecimentos oriundos da Antropologia, Paleoantropologia, das Ciências Cognitivas, das Neurociências, dentre outras. Busca compreender a maneira pela qual foi moldada e quais são os mecanismos que, a partir de estímulos (inputs), processam a informação (hardware) e produzem os comportamentos observáveis (outputs), ou seja, estuda, retrospectivamente, os mecanismos psicológicos evoluídos – procurando compreender sua função ou valor para a sobrevivência e a reprodução. Dessa maneira, mecanismos mentais para perceber intenções e desejos (Teoria da Mente), para identificar trapaceiros, aliados, ou parceiros reprodutivos, bem como criar estratégias de caça e defesa de predadores, teriam evoluído gradualmente, através de módulos mentais especializados, que se inter-relacionam, submetidos a pressões seletivas.
É interessante notar que a seleção se deu em um período em que as condições naturais e sociais enfrentadas pelo Homo sapiens eram muito diversas da que encontramos hoje – Ambiente de Adaptação Evolutiva (AEE). Portanto, teríamos uma “mente paleolítica” vivendo em um ambiente moderno. Isso ajuda a entender porque muitas pessoas tem medo de cobras, por exemplo, mesmo sem nunca ter se deparado com uma no ambiente urbano, e não apresenta nenhuma restrição quanto aos automóveis, que matam milhares de pessoas anualmente – nosso “medo ancestral” por cobras, que no passado eram um perigo real, está encravado em uma mente, evoluída em outro período histórico.
A Psicologia Evolutiva tem possibilitado a compreensão de várias características do comportamento humano, da escolha de parceiros reprodutivos até o desenvolvimento de patologias metabólicas e mentais.
Não resta dúvida, que a singela e poderosa teoria de Darwin ainda tem muito com que contribuir para a compreensão dos fenômenos da vida. Como já foi dito, nada faz sentido na compreensão dos fenômenos da vida a não ser sob a luz da evolução.

*Historiador e Especialista em Psicologia e Altas Habilidades/Superdotação

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