Por Paulo Basso*
Até
o momento, vimos como se desenvolveu, e se consolidou, o sólido
corpo teórico que respalda e comprova, de maneira inequívoca, o
fato de que as diversas espécies de seres vivos que habitam nosso
planeta são produto de mecanismos evolucionários – sendo os
principais a mutação, a recombinação gênica e a seleção
natural. Esta última, agindo incansavelmente na manutenção de
características favoráveis à sobrevivência e reprodução dos
organismos vivos.
Entretanto,
dentre aqueles que aceitam o fato de evolução, existe uma parcela
que entende que os mecanismos evolucionários agiriam apenas sobre a
“constituição física”, ou seja, apenas o corpo, membros e
órgãos, seria alvo da seleção natural. Dentro deste entendimento,
a mente seria um caso a parte, constituída através de algum
processo especial.
Essa
visão, de caráter metafísico, não encontra eco na realidade, já
que a mente é produto do cérebro. Assim, a constituição mental,
em especial a do ser humano, é produto de processos adaptativos, que
possibilitaram a nossos ancestrais maior domínio sobre a realidade.
Os que possuíam capacidades mentais mais adequadas à sobrevivência
tiveram mais sucesso em sobreviver - e transmitiram essas
características aos seus descendentes.
Este
é o pano de fundo que possibilitou a emergência da Psicologia
Evolucionista, que tem como pressuposto que o ser humano evoluiu
através de princípios da seleção natural, sendo a mente humana um
produto evolutivo.
A
Psicologia Evolucionista resulta da síntese entre a Psicologia
Cognitiva e a Biologia Evolutiva e engloba conhecimentos oriundos da
Antropologia, Paleoantropologia, das Ciências Cognitivas, das
Neurociências, dentre outras. Busca compreender a maneira pela qual
foi moldada e quais são os mecanismos que, a partir de estímulos
(inputs), processam a informação (hardware) e produzem os
comportamentos observáveis (outputs), ou seja, estuda,
retrospectivamente, os mecanismos psicológicos evoluídos –
procurando compreender sua função ou valor para a sobrevivência e
a reprodução. Dessa maneira, mecanismos mentais para perceber
intenções e desejos (Teoria da Mente), para identificar
trapaceiros, aliados, ou parceiros reprodutivos, bem como criar
estratégias de caça e defesa de predadores, teriam evoluído
gradualmente, através de módulos mentais especializados, que se
inter-relacionam, submetidos a pressões seletivas.
É
interessante notar que a seleção se deu em um período em que as
condições naturais e sociais enfrentadas pelo Homo sapiens eram
muito diversas da que encontramos hoje – Ambiente de Adaptação
Evolutiva (AEE). Portanto, teríamos uma “mente paleolítica”
vivendo em um ambiente moderno. Isso ajuda a entender porque muitas
pessoas tem medo de cobras, por exemplo, mesmo sem nunca ter se
deparado com uma no ambiente urbano, e não apresenta nenhuma
restrição quanto aos automóveis, que matam milhares de pessoas
anualmente – nosso “medo ancestral” por cobras, que no passado
eram um perigo real, está encravado em uma mente, evoluída em outro
período histórico.
A
Psicologia Evolutiva tem possibilitado a compreensão de várias
características do comportamento humano, da escolha de parceiros
reprodutivos até o desenvolvimento de patologias metabólicas e
mentais.
Não
resta dúvida, que a singela e poderosa teoria de Darwin ainda tem
muito com que contribuir para a compreensão dos fenômenos da vida.
Como já foi dito, nada faz sentido na compreensão dos fenômenos da
vida a não ser sob a luz da evolução.
*Historiador
e Especialista em Psicologia e Altas Habilidades/Superdotação

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