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terça-feira, 19 de julho de 2016

A presença incorpórea do século XXI

*por Paulo Basso

Na primeira década e meia do século XXI, vivenciamos um rico e complexo processo de acumulo de mudanças e dilemas, daquelas oriundas. As rápidas transformações técnico-científicas, quase nunca acompanhadas do tempo necessário para sua apropriação simbólica, têm jogado as sociedades contemporâneas em uma caçada sem fim, e inglória, “atrás do próprio rabo”. As referidas transformações científicas e tecnológicas causaram impactos que se fizeram sentir em todas as áreas de atuação humana: economia, política, cultura etc. Constatação maior deste paradoxal e conturbado momento é a massa de informações que possuímos à nossa disposição, e a dificuldade enfrentada para transformá-la em conhecimento útil e simbolicamente relevante. Encontrar-se enquanto indivíduo e ser social, neste emaranhado de rápidas e implacáveis mudanças, tem sido o grande desafio para as pessoas do nosso tempo. Além disso, nossa familiar noção de espaço-tempo foi drasticamente alterada – somos seres que evoluímos nossos cérebros com a percepção permanente de distâncias físicas e superação temporal do deslocamento territorial. Também evoluímos, como mamíferos e primatas, para vivermos em grupos – onde aprendemos, protegemos e somos protegidos, encontramos significados e afetos.
A experiência de realidade virtual tem alterado de maneira significativa estes dois pilares evolutivos da percepção humana, possibilitando o deslocamento quase imediato da informação, bem como a formação de grupos sem a necessidade da presença física, e seus compromissos de médio e longo prazo – entrar e sair de um grupo, não implicam grandes empreendimentos, as relações de fidelidade e lealdade esvanecem ao primeiro contraditório. As pessoas são como “fantasmas”, indivíduos digitais, massa de dados atuantes – a presença incorpórea do século XXI. Desta maneira, as relações sociais e afetivas também vão adquirindo um tom protocolar, distanciado e interesseiro. Os relacionamentos não resistem aos seus problemas inerentes, pois não ficam raízes de compromisso de longo prazo, criam-se os “exércitos emocionais de reserva” – aos primeiros sinais de insatisfação as pessoas buscam outra relação, virtual ou presencial, que preencha a anterior e assim sucessivamente.

Por fim, devemos também nos preparar para enfrentar os dilemas éticos das novas tecnologias de manipulação genética, que poderão lançar uma pá de cal definitiva na nossa visão do ser humano, do seu papel e suas relações interpessoais e sociais – avançam, a passos largos, as pesquisas que poderão redundar em um aumento substancial da perspectiva do tempo de vida, o fim de várias doenças, a ampliação da capacidade cognitiva humana, em comutação com computadores quânticos, e a perspectiva, não ficcional de algo próximo à imortalidade. Teremos então tempo suficiente para compreender o ser humano, ou este objeto de estudo já estará defasado?

*Historiador e pós graduado em Psicologia e Altas Habilidades/Superdotação

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