*por Paulo Basso
Na primeira década e meia do século XXI, vivenciamos
um rico e complexo processo de acumulo de mudanças e dilemas, daquelas
oriundas. As rápidas transformações técnico-científicas, quase nunca
acompanhadas do tempo necessário para sua apropriação simbólica, têm jogado as
sociedades contemporâneas em uma caçada sem fim, e inglória, “atrás do próprio
rabo”. As referidas transformações científicas e tecnológicas causaram impactos
que se fizeram sentir em todas as áreas de atuação humana: economia, política,
cultura etc. Constatação maior deste paradoxal e conturbado momento é a massa de
informações que possuímos à nossa disposição, e a dificuldade enfrentada para
transformá-la em conhecimento útil e simbolicamente relevante. Encontrar-se
enquanto indivíduo e ser social, neste emaranhado de rápidas e implacáveis
mudanças, tem sido o grande desafio para as pessoas do nosso tempo. Além disso,
nossa familiar noção de espaço-tempo foi drasticamente alterada – somos seres que
evoluímos nossos cérebros com a percepção permanente de distâncias físicas e
superação temporal do deslocamento territorial. Também evoluímos, como
mamíferos e primatas, para vivermos em grupos – onde aprendemos, protegemos e
somos protegidos, encontramos significados e afetos.
A experiência de realidade virtual tem alterado de
maneira significativa estes dois pilares evolutivos da percepção humana,
possibilitando o deslocamento quase imediato da informação, bem como a formação
de grupos sem a necessidade da presença física, e seus compromissos de médio e
longo prazo – entrar e sair de um grupo, não implicam grandes empreendimentos,
as relações de fidelidade e lealdade esvanecem ao primeiro contraditório. As
pessoas são como “fantasmas”, indivíduos digitais, massa de dados atuantes – a
presença incorpórea do século XXI. Desta maneira, as relações sociais e
afetivas também vão adquirindo um tom protocolar, distanciado e interesseiro.
Os relacionamentos não resistem aos seus problemas inerentes, pois não ficam
raízes de compromisso de longo prazo, criam-se os “exércitos emocionais de
reserva” – aos primeiros sinais de insatisfação as pessoas buscam outra
relação, virtual ou presencial, que preencha a anterior e assim sucessivamente.
Por fim, devemos também nos preparar para enfrentar os
dilemas éticos das novas tecnologias de manipulação genética, que poderão
lançar uma pá de cal definitiva na nossa visão do ser humano, do seu papel e
suas relações interpessoais e sociais – avançam, a passos largos, as pesquisas
que poderão redundar em um aumento substancial da perspectiva do tempo de vida,
o fim de várias doenças, a ampliação da capacidade cognitiva humana, em
comutação com computadores quânticos, e a perspectiva, não ficcional de algo
próximo à imortalidade. Teremos então tempo suficiente para compreender o ser
humano, ou este objeto de estudo já estará defasado?
*Historiador e pós graduado em Psicologia e Altas Habilidades/Superdotação

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