Por Paulo Basso*
Os
seres humanos sempre se questionaram acerca de suas origens. Ao longo
dos séculos, nas mais diversas sociedades, pensadores refletiram e
buscaram repostas para um dos maiores mistérios da natureza: a
origem e desenvolvimento da vida.
Entretanto,
todas as tentativas de entender os mecanismos que tornaram a vida
possível passavam por concepções místicas e metafísicas,
mitologias envolvendo a vontade e/ou necessidade de deuses e deusas.
Mesmo
os gregos clássicos, que avançaram, em alguns momentos, no sentido
de uma explicação em termos de forças e processos naturais, não
puderam dar o passo decisivo no entendimento dos mecanismos que tornam
a diversidade e complexidade da vida possível.
Tivemos
que esperar até o século XIX para que esse grande mistério
começasse a ser solucionado, através da engenhosa, pois simples e
sutil, Teoria da Seleção Natural, do naturalista britânico Charles
Darwin.
Na
verdade, a percepção de que os seres vivos mudam ao longo do tempo,
em um processo evolutivo, era motivo de discussão e alvo das mais
variadas teorias, naqueles primórdios de séculos XIX, e mesmo
antes. O próprio avô de Charles, Erasmus Darwin, era um polêmico
defensor dessa visão. Entretanto, por mais que se percebesse que as
espécies não eram imutáveis, e que os seres não surgiam
espontaneamente, ao contrário do que a visão religiosa e a
filosofia naturalista da época queriam, não se concebia um
mecanismo plausível para a emergência da complexidade a partir da
simplicidade, a não ser pela obra de um criador benevolente.
O
mérito de Charles Darwin foi intuir, a partir de uma monumental somatória
de dados empíricos e observações das mais variadas, e propor, de maneira coerente, o mecanismo que possibilita o surgimento
da complexidade e da variação da vida: a Seleção Natural.
A
sua teoria, em seus princípios básicos, válida até os dias
atuais, diz que a natureza é prolífica, ou seja, produz mais formas
de vida do que o número que pode sustentar. A cada geração,
ocorrem pequenas variações na constituição dos indivíduos
nascidos, em uma dada população. A maior parte dessas variações são
nocivas e, portanto, o indivíduo que as possui não sobrevive;
entretanto, algumas dessas variações são benéficas, ou seja,
oferecem alguma vantagem para o seu possuidor, permitindo que o mesmo
tenha maior possibilidade de sobrevivência e, o mais importante, de
sucesso reprodutivo – garantindo que essa vantagem adquirida seja
transmitida aos seus descendentes, hereditariamente. Dado tempo
suficiente, o acumulo de muitas e pequenas variações, conhecidas
atualmente como mutações, são a base do desenvolvimento dos mais
variados membros, órgãos, sistemas, espécies, etc., ou seja, de toda a estonteante e magnífica diversidade e complexidade da vida. Observa-se que as mutações são, em sua maioria, nocivas aos organismos, só
sendo possível a evolução adaptativa seletiva pelo grande tempo
disponível, tempo geológico, para que as variações úteis se
acumulem em benefício dos seres vivos.
Portanto,
o que Darwin nos revelou é que, gradualmente, através de pequenas
transformações, órgãos e funções podem evoluir, beneficiando os
seres vivos em sua luta pela sobrevivência e reprodução, e serem
transmitidos às gerações futuras - originado novas formas de vida.
O mais interessante é que Darwin já percebia, de maneira clara, que os
“instintos” e a “mente”, assim como as demais características
de um ser vivo, também são alvo da evolução, através da Seleção
Natural: “Com relação aos instintos, por mais espetaculares que
sejam, vemos que não oferecem maiores dificuldades que as estruturas
corporais para serem explicados pela teoria [...] de modificações
sucessivas e ligeiras [...]" ("A Origem das Espécies").
O grande naturalista entrevia um futuro no qual novos campos se abririam para a pesquisa baseada na Teoria da Evolução. Argumentava que a Psicologia teria por base o fundamento da aquisição gradual das faculdades e aptidões mentais - lançando, assim, nova luz sobre a origem e a história dos seres humanos.
*Historiador e Pós-Graduado em Psicologia e Altas Habilidades/Superdotação

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