O
documentarista que trabalhou vários anos com a NASA acha que 38 anos
depois do lançamento está na altura de enviar uma última mensagem
às Voyagers antes de perdermos, em 2025, o contacto com as naves que
já viajam fora do sistema solar. A campanha no Facebook, que
arrancou a semana passada, recebe cerca de 100 mensagens novas por
dia.
Christopher
Riley, nasceu
no Yorkshire, Reino Unido, tem 48 anos e um doutoramento do Imperial
College, Universidade de Londres. Produtor, realizador e escritor, já
foi nomeado para BAFTA e Emmy e tem trabalhado ao longo dos anos em
vários projectos da NASA. É convidado recorrente da televisão e da
rádio britânicas para falar sobre ciência e astronomia. A semana
passada lançou uma campanha no Facebook: quer receber mensagens de
todo o mundo para enviar para as Voyagers, as naves que partiram da
Terra em 1977 levando consigo um disco dourado com o resumo da
história da humanidade para o caso de se cruzarem com outra
civilização inteligente. Hoje já estão fora do sistema solar e em
2025 a NASA perderá todo o contacto com elas. É por isso que
Christopher Riley não quer perder a oportunidade de lhes enviar uma
mensagem final.
Em
que momento pensou “e se enviássemos uma mensagem às
Voyagers”?
As
Voyagers são um dos grandes feitos da humanidade. São monumentos
notáveis à nossa espécie e levam consigo pela galáxia provas da
nossa existência. Mas não estaremos para sempre em contacto com
elas. É por isso que, antes que a energia a bordo acabe, porque não
fazer upload de uma mensagem final para o seu banco de memória
marcando o fim do seu tempo de contacto connosco?
É
um projecto a solo ou tem uma equipa a trabalhar consigo?
Somos
uma pequena equipa de voluntários que desenvolvem a aplicação do
Facebook.
Nem
toda a gente leva a iniciativa a sério. Tem recebido muitas
mensagens disparatadas?
Não.
Temos recebido cerca de 100 mensagens por dia e a maioria são
genuínas e sinceras. As pessoas parecem estar a pensar bem no que
querem escrever.
Sente
que os terráqueos querem realmente comunicar com alienígenas?
Acho
que sempre houve um grande anseio da humanidade por encontrar um
sinal de que a Terra não é o único mundo a albergar vida
inteligente, de que há lá fora outras civilizações que podemos
contactar. Quando damos oportunidade às pessoas de dizer algo a
outro mundo não é de estranhar que apareçam tantas sugestões.
Tem
uma ideia de quantas contribuições terão no final?
Foram
cerca de 400 em quatro dias. Sabe-se lá quantas serão nos próximos
anos... Mas gostava mesmo de conseguir contribuições de todas as
culturas e comunidades, e o Facebook chega a todo o mundo. Este
projecto é para todos os seres humanos contribuírem, já que é uma
mensagem que representa a nossa espécie como um todo.
Quando
dirá que já é suficiente, vamos enviar para a NASA?
Vamos
ter o projecto no ar durante os próximos cinco anos antes de
enviarmos as melhores sugestões para a NASA. Isto ainda dará muito
tempo à agência para decidir se quer enviá-las para uma das
Voyagers antes que a energia a bordo acabe (no início dos anos
2020).
Haverá
uma triagem?
Acho
que encontraremos uma maneira de os utilizadores de Facebook
escolherem as suas mensagens favoritas – e provavelmente só
enviaremos algumas dezenas, as mais populares, juntamente com a nossa
petição com toda a gente que contribuiu para o projecto.
Na
página do Facebook diz ter esperança que a NASA envie a mensagem.
Já iniciou contactos?
Trabalhei
com a NASA durante muitos anos em vários projectos de documentários
e fiz amigos por lá ao longo do tempo – alguns nas missões
Voyager. Espero que as respostas a esta campanha e o interesse
despertado pela ideia em todo o mundo acabem por persuadir a NASA de
que isto é uma coisa boa.
O
disco dourado foi feito nos anos 70 e desde então evoluímos muito.
Mas 38 anos em tempo intergaláctico são um nanossegundo… Daqui a
outros 38, os anos 2010 podem parecer saídos da pré-história…
O
disco dourado é mais eterno do que julga. Embora tenha sido feito em
1977 foi uma tentativa de reflectir a cultura humana de milhares de
anos. Algumas das músicas são de culturas ancestrais e algumas das
línguas representadas são tão antigas como o sumério [a primeira
língua escrita conhecida]. Não é apenas um instantâneo dos anos
70. A ideia de apresentar uma mensagem final é marcar o fim da fase
científica das Voyager – enquanto ainda podemos contactá-las –,
para marcar o facto de passados 40 anos continuarem a funcionar e a
recolher dados preciosos. Também é uma oportunidade de fazer um
comentário final sobre a rapidez com que a nossa sociedade mudou
desde que as naves deixaram a Terra. A nossa população duplicou e o
desafio de vivermos juntos de forma pacífica e sustentável são
prementes. É claro que esta perspectiva vai mudar de novo dentro de
38 anos, mas isso não significa que não valha a pena fazer um
registo de como as coisas estão agora usando os últimos amperes de
energia a bordo antes de dizermos adeus.
Numa
das suas entrevistas dizia: “porque não fazer este último gesto,
simples e fácil, de comunicação intergaláctica?” É mesmo
simples e fácil?
O
que poderia ser mais fácil que angariar sugestões via Facebook? É
a plataforma perfeita para recolher mensagens de uma comunidade
global e uma forma de partilhar todas as que forem sugeridas. O acto
seguinte, enviar uma delas para as Voyagers, não deve ser um grande
desafio. Em comparação com todo o esforço para propor, financiar,
construir e manter as Voyagers nos últimos 40 anos e levá-las à
fronteira do sistema solar, este último gesto deve ser
fácil.
Também
disse que é pouco provável que as nossas naves sejam interceptadas
por alienígenas. Porquê fazer isto?
Creio
que a nossa campanha no Facebook abraça o mesmo espírito com que os
discos dourados foram criados. Centrarmo-nos no que gostaríamos de
dizer sobre a nossa civilização a outra sociedade tecnológica e
inteligente. Sejam encontradas ou não, não deixa de ser um desafio
interessante – como a reacção à nossa campanha sugere até
agora.
Vamos
assumir que uma forma de vida extraterrestre encontra as Voyagers.
Que reacções haveria?
O
desafio com a nossa proposta de mensagem digital (ao contrário dos
discos dourados analógicos) é que vai ser difícil de decifrar. É
impossível escrever o que quer que seja numa das nossas línguas que
seja facilmente descodificado e compreendido. A primeira reacção
seria perceber que estava ali algum tipo de código mas não iriam
percebê-lo ou apreciar o seu significado. Talvez conseguissem
interpretar os padrões de repetição de caracteres, mas seria muito
difícil. Há quem sugira que seremos nós a reencontrar as Voyagers
quando evoluirmos e tivermos tecnologia que nos permita viajar mais
depressa que elas pela galáxia. Esse momento – quanto os nossos
descendentes longínquos virem como nos sentíamos sobre nós
próprios no início do século xxi – poderá ser propício a uma
reflexão muito especial.
E
o inverso? Se fôssemos nós a encontrar uma Voyager de outro
mundo?
Ficaria
espantado se, na vastidão da galáxia, uma sonda espacial alienígena
conseguisse, provavelmente por acidente, encontrar o caminho para o
sistema solar, chegando suficientemente perto para ser detectada.
Significaria que quem a tivesse enviado teria enviado milhões delas
para a galáxia, e isso seria extraordinário. A minha crença
pessoal é que civilizações como a nossa serão incrivelmente raras
na Via Láctea. Isso dá ao que fizemos enquanto espécie – enviar
as Voyagers para fora do sistema solar – tenha um significado ainda
mais belo e profundo e a oportunidade de enviar uma mensagem final
seja ainda mais maravilhosa.


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